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Prosa Boa 88 - Pesca nas Corredeiras do Rio PDF Imprimir E-mail
Ter, 25 de Outubro de 2011 13:28

prosamansurokBoa tarde amigos!!

Nossa Prosa Boa de hoje, vai mostrar como funciona a pescaria nas corredeiras do São Francisco, principalmento do lado esquerdo do rio, em Buritizeiro.

Por incrível que pareça, o sistema continua hoje como nos velhos tempos, leia atentamente a matéria e veja como funciona. É ao modo do barranqueiro, mas não deixa de ser uma perfeita empresa, cooperativa, ou como quiserem chamar, todos respeitam!prosaboaok2

De qualquer maneira, vale a pena pesquisar um pouco, conversar com os pescadores antigos, e até saber o porque de cada nome dos pesqueiros.

Vamos a matéria.

 

Organização da pesca nas corredeiras de Buritizeiro

 

pesca_nas_corredeiras

Este estudo foi realizado com os pescadores da cidade de Buritizeiro, por Ana Paula G. Thé & Nivaldo Nordi e apresentado no III Simpósio Brasileiro de Etnobiologia e Etnoecologia realizado em Piracicaba, SP, de 16 a 21 de julho de 2000. Nos mostra de forma interessante a organização feita pelos próprios pescadores dos horários e locais para pesca na cachoeira. A pesca praticada por este grupo ocorre no Rio São Francisco, próximo à ponte que une Buritizeiro ao município de Pirapora (MG). Este trecho do rio é uma região de corredeiras e a pesca nele é considerada ilegal.

Cerca de 30 pescadores freqüentam esta região e sua grande maioria (80%) não possui carteira profissional. A pesca é realizada neste trecho principalmente com o uso de tarrafa e em seguida, por uma armadilha fixa denominada colfo.

A comercialização do pescado é feita na própria cidade, no atacado pelos atravessadores e nos restaurantes de Pirapora.

A existência de uma segregação espaço-temporal, entre os pescadores, na utilização de pontos de pesca em determinadas regiões das corredeiras leva a hipótese de que exista um comportamento territorial.

COMO ACONTECE

Existem três regiões da cachoeira (forma como se referem à corredeira) onde ocorre a divisão espaço-temporal da atividade da pesca. Estas regiões são denominadas de “Cabeça do Rego”, “Toma Banho” e “Pedra do Descanso e Barbaio”.

Para cada uma destas regiões existe um grupo de pescadores que possuem o direito de seu uso em determinados horários. Segundo os pescadores, este arranjo passou a existir após a pesca na corredeira ter sido proibida, pela legislação da pesca, na região de Buritizeiro e Pirapora. Antes da proibição, apenas os pescadores mais antigos e com carteira pescavam na cachoeira.

Havia apenas um ponto de uso exclusivo de um pescador, a Pedra do Descanso. Os demais pontos, todos tinham direito do uso, mas entravam na cachoeira uma dupla por vez, por ordem de chegada. Após a proibição, houve o abandono destes pontos por vários pescadores que passaram a temer a fiscalização e assim o direito ao uso destes pontos e horários passaram a ser dos pescadores mais novos que os acompanhavam como aprendizes e ajudantes, durante as pescarias. Houve então a transferência do uso dos pontos aos filhos, netos ou sobrinhos e a pescadores amigos e mais jovens que ainda não tinham o direito sobre nenhum ponto.

Também surgiu após este período o comportamento denominado de ir na aguarda. Na aguarda qualquer escador pode entrar nos pontos de pesca para pescar, atrás dos pescadores donos do ponto e somente enquanto estes estiverem dentro da cachoeira pescando.

... Antes da florestal, os mais véios não deixavam pescar quem não tinha carteira. Depois da florestal, ninguém podia pescar...portanto, ninguém poderia ser dono de ponto. Com isso, começaram a aparecer pescadores de aguarda, já que nenhum pescador tinha direito de proibir ninguém....

Para estes três pontos existem horários de entrada que duram cerca de 50 minutos cada um, em média (pode ser maior, se a produção estiver sendo alta). Os horários de entrada no rio são, no período diurno, 9:00, 12:00 e 15:00h e, no noturno, 18:00, 00:00, 03:00 e 6:00h

Dos pescadores entrevistados e que tem direito ao uso dos pontos, seis (23%) herdaram de avós, pais, irmãos ou parceiros antigos, seis (23%) compraram de outros pescadores, oito (31%) usam os pontos desde o início da divisão com os pescadores mais antigos e os seis restantes (23%) freqüentam os pontos na aguarda ou as vezes utilizam estes quando o dono da hora no ponto não pode pescar e oferece a vez em troca de metade da produção.

Os demais locais da corredeira não possuem rodízio, qualquer pescador pode pescar a qualquer hora do dia, sem seguir os horários de entrada da manhã e à noite. O principal motivo apontado pelos pescadores para a existência do rodízio nos três pontos comentados, é a maior produtividade da pesca nestes setores, por ser o local de passagem do peixe na cachoeira.

Os pescadores, além de nomear os pontos na cachoeira, também nomeiam os “lanços”, os locais onde lançam a tarrafa durante a pesca. Na Tabela I vemos os nomes dos lanços por ponto de pesca.

 

LANÇOS POR PONTO DE PESCA

Toma Banho

• lanço do colfo
• lanço do pulo
• chiqueiro
• lanço das 2 pedras-batentes
• rabo do colfo
• pedra chata
• sobradinho
• esteio
• pedra piau

Cabeça do Rêgo
• lanço do buraquinho, buraquim
• pedra comprida
• lanço do rebojo, rebojim
• lajedo
• buraco
• entre as duas pedras

Pedra do Descanso
• lanço da entrada
• buraco ruim
• batente
• pedra rachada
• chiqueiro grande
• buraco de Adão

Barbaio
• pedra comprida
• pedra doce
• liso do barbaio
• lanço da pinda/pinda de baixo
• pedra do apuador
• batente do barbaio
• recanto
• buraco do barbaio
• lanço do rebojo

Lanço do pulo: ...é porque a Curimatá pula quando chega lá...

Buraco de Adão: ...porque só ele lançava naquele lugar, ele que inventou esse lanço...

Buraco ruim: ..é o melhor lugar para pegar peixe, mas tem esse nome, engancha a rede. É cheio de pedra e loca...

Chiqueirinho: ...pegaram um porco descendo lá, ganhou esse nome...

Pedra do piau: ...porque pega muito piau lá na seca. É um buraco, piau cai lá dentro e aí seca e ficam preso...

Interessante que a gente vive tão perto e pouco conhece dos costumes e porquês que fazem parte da cultura dos pescadores que nos cercam.
Esta pesquisa feita em 2000 pode já estar totalmente desatualizada, os costumes já podem ter mudado, e como o “peixe estava sumido” hoje a realidade com certeza é outra.

Que tal dar uma olhadinha por lá?

Sentar no barranco e ficar observando o entra e sai dos pescadores na cachoeira, conversar com alguns, perguntar como se organizam hoje.

Pode ser interessante!!

Veja a facilidade de como caminham sobre as pedras....literalmente, este conhece "o caminho das pedras".

Frase do Dia: "...não há bem que sempre dure, e nem mal que nunca acabe..."

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Comentários  

 
0 #1 RE: Prosa Boa 88 - Pesca nas Corredeiras do Rio 25/10/2011 14:04
Admiro demais...quem sou eu pra fazer 1/3 do que eles fazem...e com maestria
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