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Januária. Uma negra escrava fugida, com nome de princesa e espírito de luta e liberdade, chega às margens do Rio São Francisco, nas veredas do norte das Minas Geraes e ali se estabelece. Do escambo, das mercadorias dos barqueiros, das vicissitudes da vida do sertão formou-se em volta dela um porto, um entreposto, uma vila.

Não demorou para chegar até lá a cana-de-açúcar. O solo do então chamado Brejo do Amparo era fértil graças às benções do São Francisco que banhava toda a região e à composição calcária de suas terras. As casas de cozer méis se alastraram por aquelas plagas e os engenhos, além de se dedicarem à produção de rapadura e açúcar, incluíram um item que tornou famosa a cidade em todo o Brasil: a cachaça de Januária.

Precisamos fazer justiça, porque uma coisa não existiria sem a outra. Sem a atividade criada pela velha negra escrava, que hoje poderíamos chamar de comércio, mas na época era considerado contrabando ou cururu, como se dizia por lá, e sem o Velho Chico que funcionava como um ser absoluto que tudo provia e abastecia, levava e trazia, fertilizava e germinava, Januária seria apenas um ponto de várzea numa curva do rio.

Quis o destino que ali se estabelecesse uma atividade comercial forte que tinha na cachaça um dos pontos de esteio e fez crescer o antigo Brejo do Amparo, que na época que já era conhecido como as terras da velha Januária, até o ponto de ser elevada à categoria de cidade. Os homens importantes da sociedade local resolveram então dar-lhe o nome de Januária, mas em homenagem à filha do imperador D. Pedro I, que nunca pisara por aquelas bandas. Para eles, o nome conferia nobreza para a comarca que doravante iriam comandar. Januária, a jovem princesa, tomou o lugar de Januária, a velha escrava negra fugida que reinara absoluta nos portos várzeos que abasteciam o sertão e suas veredas.

Mas foi a cachaça que fez perpetuar o nome Januária. Os barqueiros do São Francisco deram conta de espalhar sua fama pelo Brasil. Dali a levaram para a Bahia, para o mar, para embarcar no Ita que fazia a viagem para a então capital federal, Rio de Janeiro. Junto com Paraty virou sinônimo de cachaça e foi parar até no dicionário. Em todas as partes do Brasil se ouvia falar de sua qualidade e de seu sabor.

Não fosse ficção, muito provavelmente o bando de Riobaldo e Diadorim, do maior romance brasileiro de todos os tempos, Grande Sertão: Veredas, teria se embriagado com as maravilhosas cachaças de Januária. Afinal, Januária é citada 17 vezes no livro e fez parte das tantas travessias do grupo para as veredas e buritizais do sertão. Talvez seu autor, João Guimarães Rosa, em suas andanças, tenha se deliciado com o néctar produzido pelos engenhos do Brejo do Amparo.

Só para situar, essa história de que estou falando tem seu início nas primeiras décadas de 1800 e a cachaça atinge o seu auge nas primeiras décadas de 1900. Porém, depois da revolução constitucionalista de 1930, começa um período de decadência na região e a cachaça de Januária não fica livre dela. A atividade começou a ser perseguida, os impostos sobrecarregaram os pequenos cachaceiros (como até hoje são chamados os produtores de lá), que não raro tentavam viver do cururu (contrabando) para obter melhores preços e o sustento para suas famílias. Mas nem sempre era possível: os macacos federais espreitavam os barqueiros para apreender a mercadoria ilegal e impedir que ela chegasse aos grandes centros de consumo.

Decadência e ressurreição

A atividade entrou em colapso e a decadência se arrastou até o início da década de 70, com o fechamento de boa parte dos engenhos e casas comerciais de Januária. O resto da história a gente conhece, ficamos impossibilitados de beber cachaças de qualidade durante muito tempo e entregues na mão de grandes empresas engarrafadoras de “pinga”.

Ver ressurgir agora na primeira década de 2000 o gosto por este produto nacional artesanal de alta qualidade e sabor único foi a razão que me levou a pesquisar um pouco e recontar a trajetória de Januária. Melhor ainda é saber que a resistência de alguns tantos engenhos e comerciantes do Brejo do Amparo continua nos presenteando com alguns produtos marcantes, tradicionais e de personalidade própria.
Em resumo, esta é a parte da história que me interessou. Mas falta dizer um pouco sobre as propriedades que podemos reconhecer nas cachaças de Januária. Os puristas podem dizer que o seu defeito é que, na grande maioria, são produtos estandardizados. Em defesa de Januária devo dizer que isso, antes de ser um defeito, é uma das suas qualidades características.

Historicamente, foi o comércio que fez florescer a atividade da cachaça e, desde o início, fez da estandardização o seu meio de produção. Os pequenos engenhos levavam sua produção para que o comerciante fizesse a mistura que depois receberia o nome comercial. Muito semelhante ao que acontecia e acontece com os blends de whisky na Escócia. Tupiniquim, mas semelhante.

Por sua vez, as marcas zelavam por seu nome e sempre mantiveram o mesmo padrão de sabor, envelhecimento e qualidade. Tudo isso muito bem controlado por que circunscrito a uma região plantada mais ou menos demarcada pela ação fertilizante das margens do São Francisco.

O local é um vale com paredes de rochas calcárias, solo naturalmente úmido e com uma perfeita combinação de fertilizantes minerais depositados no seu fundo, trazidos das formações rochosas pelas chuvas. Por um capricho da natureza, todos esses elementos juntos permitiram a Januária ter uma condição fantástica para o desenvolvimento da cana durante todo o ano, conferindo a ela um sabor especial e único.

Outra característica é a madeira. Como era uma região com uma grande quantidade de umburana, a maioria das cachaças de Januária é envelhecida em dornas feitas desta madeira e confeccionadas pelas mãos talentosas dos tanoeiros da cidade.

Infelizmente, a ganância e falta de consciência conservacionista das primeiras oito décadas do século 20 fez praticamente ser extinta a umburana da região. Hoje os tanoeiros não mais derrubam as árvores e só trabalham com madeira certificada vinda da Amazônia. Com isso, as nossas Januárias preservam este sabor levemente aveludado e perfumado da umburana.

Januária é aqui

Enfim, digo tudo isso sem nunca ter ido a Januária. Peço desculpas por esta falha grave e da qual breve devo me redimir. Tomei sim as cachaças, tentei entender sua história e percebi que ela faz toda a diferença. Depois de pesquisar e saborear diversas marcas, pude perceber que, apesar de diferentes, guardam um grande parentesco entre si. E que, se tivéssemos no Brasil uma cultura de regiões demarcadas ou denominação de origem controlada, Januária seria um ótimo exemplo de como obter um produto artesanal de alta qualidade facilmente reconhecível e de alto valor percebido.

Recentemente, um amigo me pediu que fizesse a carta de cachaças do seu estabelecimento: a Loja do Cesinha da Vila Madalena. Por se tratar de um lugar pequeno, eu e meu amigo de copo Nivaldo Leite, resolvemos que a carta teria que ser sucinta e de valor acessível aos freqüentadores. Colocamos nela apenas 16 marcas, que agradaram de primeira a todos. Só depois percebemos que, inconscientemente, cinco das escolhidas eram de Januária e três delas são hoje as preferidas da absoluta maioria. Pela ordem de preferência estas são as cinco selecionadas da carta: Claudionor, Caribé, Insinuante, Velha de Januária e Januária Única.

Para quem ainda não conhece as cachaças de Januária, recomendo começar por estas, que são facilmente encontráveis, e depois seguir viagem pelas inúmeras marcas que saem dos engenhos de lá. Quanto à história, se cometi alguma imprecisão, omissão ou inverdade, me desculpem e me corrijam por favor, porque afinal sou um diletante no assunto e ainda pretendo ir mais longe. Quem sabe pegar um gaiola para conhecer de perto as belezas do Velho Chico e a mítica Januária.

ASSIM ESTÁ NA CARTA

Produzida na cidade de Januária, no norte de Minas Gerais, pela Casa Claudionor Carneiro, é uma cachaça forte, com 48% de álcool, mas seu breve estágio na madeira proporcionou um toque mais suave, levemente perfumado e harmonizado com o aroma de cana. Está seguramente entre as melhores cachaças brasileiras.

Caribé

Outra jóia da cidade de Januária. Antes de ser engarrafada foi armazenada em tonéis de umburana e, como sua famosa conterrânea, têm 48% do volume de álcool. É levemente perfumada, de sabor intenso e aveludado, guardando na memória notas aromáticas e gustativas da cana.

Insinuante

O nome a precede. Insinua-se para os apreciadores. Seu rótulo amarelo, com o nome escrito em letras cursivas em vermelho desperta, senão paixão, pelo menos curiosidade. Mas é na boca que se revela realmente insinuante. O aroma da madeira e o doce da cana-de-açúcar aguçam as papilas, amortecem levemente a língua e liberam o calor. Uma cachaça verdadeiramente inspirada. Como as outras, tem também graduação alcoólica de 48º.

Velha de Januária

Mais uma preciosidade que apresenta a graduação máxima permitida às cachaças – 48% – apesar de pouco lembrar o álcool no aroma e sabor. Estão muito mais presentes na Velha de Januária o doce sabor da cana e a madeira onde foi armazenada. Talvez seu nome seja um homenagem à velha escrava que deu origem à cidade.

Januária Única

Imagine fazer uma cachaça, próximo ao cenário que inspirou o maior romance brasileiro de todos os tempos – Grande Sertões: Veredas – na cidade de Januária. Deve ser uma experiência única. Com certeza o bando de Riobaldo e Diadorim tomou cachaças artesanais fortes assim. Única tem 48% de teor alcoólico e é levemente amarelada. Sua rusticidade é amenizada pela madeira, dando-lhe toques mais aveludados. Mas no final percebe-se que está mais para Diadorim que para Riobaldo.

(Abel Coelho é poeta e publicitário, autor de Parada 88, sua primeira coletânea de poesias. Além dos bares da Vila Madalena, na capital paulista, pode ser encontrado também no blog parecialimitada.zip.net, ou pelo e-mail acoelho@innovagrp.com)

Cachaça......uma boa Januária e outras mais...
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