Caixa de texto: Caboclos – d´água

Saul Martins

Os remeiros do São Francisco acreditam na existência de homens encantados que habitam o fundo das águas, onde edificaram cidades de luxuosos palácios, todos construídos de ouro e pedrarias. E entibiados pelas superstições que lhes modelaram o espírito desde o primeiro contato com a natureza, aceitam as fantasias que lhes passaram os avós, e as transmitem aos filhos e netos sempre aumentadas.

- Óia sá Firmina, dizia Sancho Caju, eu e Zidora viajava de canoa no pandêro, levano pá Jinuára um carregamento de mamona pá seo Vito do Landim. Conde nóis tava chegano nos Balaêro quaje qui nóis perde o fôrgo, apois vimo a morte pelo zóio.

- Uái sô Sancho, foi argum sucruiú? Perguntou-lhe a velha Firmina, mostrando-se ingênua.

- Coli o que! Muito pio sá Firmina! Nóis já tava inxergano o rancho de seo Balaêro, Zidora sentada na proa, carmamente, conde as água cumeçaro cubri de iscuma. Antonce uma canca d’água foi aproximano de nóis pua banda e a cano começo virá pua banda e pá ôta. Iô já tava perdeno a força do braço de tanto bate remo. A Zidora danô a grita prú Son Bom Jesuis da Lapa mais coli o que! As água marretava e as iscuma fivria inriba de nóis e a canoa fico disimbestada. Conde inxerguei o pirigo, já com os braço drumente, apricibi o qui era e gritei:  “Cumpáde, queim vai aqui é siô amigo Sancho Caju! Essa dona queu trago é Zidora mia muié, qui nunca féis máli a vancê. Toma uma casca de fumo e dêxa nóis passa in páis!...” A canuinha foi indereitano....

- Apois antonce era cabôco d’água, sô Sancho?! Interrompeu Firmina.

- E dos brabo, inharsim! A mia muié conde viu iô fala in cumpade, atarraco a faca no fundo d canoa e disgramô a reza. Ai antonce as águas foro acarmano e nóis fumo incostano pá berada do rio e pulemo digêro prús barranco. A Zidora tava branca Cuma vela, tremeno e bateno os dentes quinem quexada. O veio Balaêro tava isperano prú nóis na bêra do remanso, junto cá Lorença sá fia e Jusé genro dele. Conde nóis dissartamo ele danô a ri e disse qui viu o cumpáde se banhano e de vêis e conde levantava a cabeça e oiava pá nóis qui vinha cá canoa lá na vorta da ia e qui conde nóis aproximamo ele começo dá cangapé e as água disgramaro a rúpia e levanta iscuma que paricia cachuera. 

E Sancho Caju prosseguia a contar a velha Firmina das Cabeceiras suas peripécias na vida de remeiro:

- Dota feita iô tava imbarcado numa canuinha, daquelas danada pá bambiá qui inté parece qui carrego difunto...
A velha Firmina o interrompeu:

- Num ataiano sá, proposta qui pra diante vai, ancê qué ripiti essa cunversa de canoa bambiá?!

- Você num sabe?

- Inhornão!

- Apois é, inharsim! Canoa qui carrega gente qui ta morto fica maluquinha Cuma galinha do pescoço quebrado. Foi mesmo assim qui a canoa tava esse dia dinoite. Iô carregava a Imila ma fia, qui vinha cuchilano Cuma queim vei da festa. E foi nossa fricidade, pruque lá in riba duma moita de gôrfo tava um cumpade oiano pra nóis Cuma queim óia cum vontade de pegá e agarra. Iô tive arreceio da Imila vê prú qui se ela visse dava pá grita e o cáus tava pirdido. Coisa boa, sá Firmina, é a gente presta tenção nos conseio dos mais veio... Iô falei: “Óia, cumpade queim vai aqui é Sancho cum a fiinha dele. Toma essa casca de fumo prancê pó ni siô cachimbo e dêxa nóis passa in páis!”. Odispois istrepei a ponta da faca no fundo da canoa.

- Vancê num teve medo não sô Sancho? Indagou-lhe Firmina.

- Coli medo, colí o que sá Firmina! Apois queim anda cum Deus ta sarvo! Também o finado tinha parte com cabôco d’água. É purisso queles respeita  a gente. Ancê é de vê qui uma vêis eu tava lavano bem lá na fonte de Zé Preto e, conde oiei pum lado, óia um cabôco tomano banho tamém! Era um cumpade conhecido do finado e qui me dá pêxe conde priciso. Esse cabôco certa ocasião, sarvô mio pai conde ia morreno afogado. Ele tiro  o finado de dentro do remanso e boto ele quage morto in riba do barranco. Isso é prancê vê Cuma ele gostava do veio finado mio pai...

- Onde queles mora, sô Sancho? Perguntou-lhe Firmina.

- Eles mora num bandão de lugá, dibaxo dos barranco, nos palaço incantado. Agora ancê qué vê cabôco é lá na lagoa de péda. O finado me dizia queles teim uma ardêia nessa lagoa e qui eles veve do mermo jêto qui nóis aqui na terra. Eles teim mata pu dibaixo do chão, pranta roça, tudo qui nóis fazemo aqui eles tamém fais lá im baxo. Eles teim gado e tudo conte ispece de criação eles pissui la no fundo d’água...

E Firmina ouvia com atenção essa imaginações do sertanejo remador e anotava na memória um a um, todos os lances da história, para depois conta-las aos netos das Cabeceiras, acrescidas, é certo de mais um ponto.


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