

Esta matéria chamou atenção pelos desastres ocasionados pelas últimas chuvas, que deixaram a cidade de Belo Horizonte em situação crítica. É preciso respeitar a natureza, os cursos dágua, as nascentes. A frase que me chamou atenção no texto: ..."nós fazemos dos córregos e rios avenidas, e logo em seguida, nossas avenidas se transformam em córregos e rios...." vamos a matéria.
A imagem que se passa desses eventos é o da “fúria da natureza” e das tragédias humanas- profundamente lamentáveis -, como se o que ocorreu não fosse passível de previsão, e possível de ser evitado. Esses fatos nos obrigam a uma reflexão sobre a relação homem/natureza sob diferentes pontos de vista.
O primeiro ponto a ser considerado é que a enchente é vista como um evento “surpreendente” e eventualmente sobrenatural e inexplicável. Enchente ou cheia é, geralmente, uma situação natural de transbordamento de água do seu leito natural, qual seja córregos, riachos, lagos, rios, provocada geralmente por chuvas intensas e contínuas. A ocorrência de enchentes é mais frequente e danosa em áreas mais ocupadas.
Na época das chuvas - que ocorrem geralmente durante o verão, no sul do Brasil, e durante o inverno, na região norte - os rios enchem e alagam as terras em redor, chamadas áreas naturais de inundação. Isso é bom, porque a água deixa a terra mais fértil para o plantio. Mas a ação do homem mudou o curso natural das coisas…
Antigamente, antes de as cidades se formarem, a água entrava toda na terra. Quando o homem começou a tirar a vegetação e construir casas nas margens dos rios, as enchentes viraram um problemão. Sem matas e solo permeável, que funcionam como esponjas que seguram a água, o volume de água que volta para os rios aumenta muito, e o risco de acontecer uma enchente “desastrosa” aumenta junto.
Como todo fenômeno natural pode-se sempre calcular o período de retorno ou tempo de recorrência de uma enchente. Portanto, a enchente é um fenônemo natural relacionado ao ciclo das águas e do rio.
A história demonstra a importância das enchentes para o desenvolvimento das civilizações. Basicamente, todas as planícies aluviais e deltas de rios no mundo sofreram grandes enchentes. Uma série delas no século XV da nossa era, chamadas de as Enchentes de Santa Elizabeth, deram forma à parte de Holanda no delta do Reno. Todo ano o rio Nilo sobe cerca de 7 metros, alagando o vale. A enchente começa em julho e as águas vão recuando gradualmente a partir do final de outubro. Ao descer das montanhas da Etiópia, o rio traz toneladas de lama suspensa na água. Esse fértil solo negro deposita-se no chão à medida que a água passa a se mover mais devagar pelo Egito, formando uma nova camada que torna a terra bastante fértil para as lavouras.
Portanto as enchentes possibilitam a fertilização do solo, permitem a comunicação do rio com as lagoas marginais – que funcionam como berçários para a multiplicação de peixes -, enfim renovam a vida.
Um segundo ponto para reflexão é quanto às explicações dadas para as enchentes tais como “choveu num dia o esperado para 20 dias”. É como se a natureza tivesse que produzir uma quantidade exata de água naquele local, pressupondo a existência um modelo matemático preciso e perfeito a que esta deveria estar vinculado. Ora, o clima é complexo e não está submetido ao controle da ciência e do homem. Os fatores que determinam as intensidades das chuvas são complexos, e cada vez mais influenciados pela ação humana através do aquecimento global.
O terceiro ponto a ser colocado são as verdadeiras causas das enchentes. Às vezes o nosso olhar e o foco da mídia estão direcionados para o local do evento e os danos que ele provoca, sem uma visão sistêmica.É a mesma coisa que querer tratar um derrame cerebral sem entender e tratar a causa básica, no caso a pressão alta. O ponto crítico das inundações é decorrente da erosão, da ocupação desordenada do solo de fundo dos vales, do manejo Inadequado do solo e de microbacias hidrográficas, do desmatamento, (com a redução da cobertura vegetal), da impermeabilização através da urbanização, da ocupação inadequada das encostas, da baixa capacidade de infiltração das águas pluviais, do escoamento superficial alto causando erosão, dos canais assoreados devido à grande quantidade de sedimentos e de lixo doméstico que são carreados para o leito dos rios. As causas são sistêmicas tem relação com o território de bacia hidrográfica e não pontuais.
O quarto ponto diz respeito à forma como processamos e interpretamos as enchentes com manchetes do tipo “a natureza cobra o seu preço”, o “o rio foi impiedoso” e outros. Por vezes temos tendência de atribuir à natureza sentimentos como se ela humana fosse, numa verdadeira prosopopéia. A natureza não é dotada de sentimentos ou de um pensamento lógico de vingança, ela puramente opera leis naturais e procurar equilibrar o ecossistema a fim de manter a vida. Nós transformamos córregos e rios em avenidas e depois nos espantamos quando as avenidas e ruas se transformam em córregos. Quem é o irracional ou ilógico nesta história?
Quinto ponto: enquanto na Alemanha e outros países da Europa a gestão das águas passa pela renaturalização, permitindo o escoamento natural das águas e dos rios, aqui continuamos insistindo nas canalizações. Encaixotarmos córregos e rios dentro de uma visão de controlar a natureza. Aí quando o volume de chuva que cai comporta dentro da caixa d’água, tudo bem, a natureza é perfeita, e, se não, a natureza é o demônio. O projeto Manuelzão, desde 1998, vem defendendo a não-canalização e inclusive apoiou a DN 95/2006 do COPAM definindo critérios que limitam as canalizações. Temos que conviver com córregos, riachos e rios em leito natural, sem lixo e sem esgotos, pois eles representam os caminhos naturais das águas.
O sexto ponto refere-se à prepotência da visão antropocêntrica. Um fato ilustra bem esta situação. Recentemente, assisti a um debate na ALMG em que um político afirmava que a lei florestal, que determina 30 metros de margem como área de proteção do rio, não se aplicava às zonas urbanas. Só falta alguém apresentar um projeto para revogar a lei da gravidade!
De tudo isso é possível retiramos algumas conclusões
importantes: as enchentes são fatos naturais e fazem parte do ciclo
das águas e da vida; as margens dos cursos d’água pertencem
a eles e não ao homem; é preciso mudar conceitos na relação
homem/natureza - ao invés de dominá-la temos que respeitá-la;
para termos uma ação preventiva e evitar efeitos catastróficos
temos de ter uma visão sistêmica; e talvez a mais importante
de todas as lições: o planejamento urbano não pode desconsiderar
e desrespeitar o território da bacia hidrográfica e da gestão
das águas baseado nele.
Créditos: Marcus Vinicius Polignano - Coordenador do projeto Manuelzão
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