
Seria possível fazer um paralelo entre a história de Antônio Dó e a de Lampião?
Acho que Lampião foi um produto do meio na época. O Nordeste era uma região onde realmente existia uma disputa muito grande entre os usineiros, proprietários rurais, coronéis e a população como um todo. Não acredito que exista nenhum ponto comum entre os dois, a não ser a irresignação com a perseguição.
Como foi que Antônio Dó se rebelou?
Antônio Dó não tirou nada de ninguém. É verdade que no final da vida ele foi um pouco bandido, mas a princípio não. Ele só queria receber de volta o que havia perdido por perseguição política. Ao contrário de Lampião, ele não saía com um bando invadindo propriedades, roubando, matando. Para se defender da polícia ele procurava um lugar para se estabilizar, tanto é que ficou mais de ano como garimpeiro em Arinos. Depois, quando retornou a São Francisco foi com um bando de jagunços para se garantir contra qualquer perseguição. Mas era tido como “procurado”. Então se estabeleceu no distrito de Brejo da Passagem, hoje distrito de Serra das Araras, no município de Chapada Gaúcha, como uma espécie de mandatário, dono da região.
Os moradores o respeitavam?
Respeitavam. Ele fazia divisões, partilhas, casamento, separações, dividia bens. Durante uns dez a quinze anos ele mandou naquela região sem ser perseguido pela polícia. Em razão de uma partilha de bens de um inventário que tinha ficado todo com a viúva de um morador da região, ele redividiu, dando a metade para ela e a outra para os filhos. O fato foi levado à justiça em São Francisco que, considerando que ele não tinha autoridade para fazer essa divisão, prendeu as pessoas beneficiadas. Dó então resolveu soltar essas pessoas. Foi sua última odisséia. Ele passou pela Ponte dos Ciganos, hoje São João da Ponte, para conseguir mais jagunços, e entrou em São Francisco pela última vez. Adão Oliveira da Rocha impediu que ele fizesse o ataque a São Francisco.
Como foi que ele morreu?
Um oficial de justiça foi enviado par afazer a intimação e a prisão dele, mas não chegou a fazê-lo porque tinha sido morto antes por Chico Nenê, de Brasília de Minas.
Por que ele foi morto?
Na década de 20 começaram a ser feitas as divisões de terra na região de São João da Ponte. O agrimensor estava lá fazendo a divisão e o padre Gangana, que por sinal era de São Francisco, pediu a Antônio Dó para que o afastasse de lá. O agrimensor era irmão de Chico Nenê, que era político em Brasília de Minas e também levou seus jagunços para o local. Mesmo assim Antônio Dó afastou o agrimensor, mas Chico Nenê infiltrou dois jagunços dele no grupo de Dó que, um ano depois, aproveitando a situação de conflito com a justiça, o mataram.
A história de Antônio Dó se identifica com o cotidiano do sertanejo mineiro-baiano?
Da época com toda certeza. O livro retrata a questão sociológica da época; a relação entre o coronelismo, o chefe político e o povo, a interligação de poder, de mando, a força política dirigindo os destinos do município sem pensar na coletividade. Se a pessoa pertencia ao partido político dominante, tinha tudo; se não, era perseguida, espezinhada, até seus bens eram tomados. Foi o que aconteceu com Antônio Dó.
Como é hoje?
Hoje é diferente. O povo adquiriu consciência. O que existia antes era subordinação, aceitação do poder. O povo não sentia autoridade porque ele não criava autoridade. Ele recebia autoridade. E muitas vezes a autoridade não estava preparada para o exercício do poder. Eu não sou contra o coronel. O coronelismo foi um bem necessário a esse país, na sua devida época e condições. Sem o coronel no interior o Brasil não teria desenvolvido, porque o Estado não estava presente para dar garantia ao povo, e até hoje ainda não está. Eram os coronéis que faziam as vezes do Estado e tiveram um papel importantíssimo, tanto que são respeitados até hoje pelas comunidades onde viveram.
Depois
de tantos anos, com a história sendo repassada na oralidade, qual a
impressão do povo da região sobre Antônio Dó?
São Francisco não guardou sua história. As escolas fazem
dramatizações, mas de um modo geral, junto ao povo, está
caindo no esquecimento. Até a década de 1950 ainda era lembrado,
mas daí pra cá, não mais. Com Serrano de Pilão
Arcado minha pretensão é que a população do município
tenha conhecimento de Antônio Dó, da realidade, do homem, do
cidadão Antônio Dó.
O resgate histórico como o que foi feito em Serrano de Pilão
Arcado, pode ajudar a comunidade na compreensão de sua história
e a minimizar esses conflitos, ou pelo menos entender suas causas?
Eu vejo na história de Antônio Dó um marco de rebeldia contra o abuso de autoridade. O cidadão que não aceitou a opressão, não se omitiu, mas não teve condições de resgatar seus direitos nem mesmo pela força porque ele não tinha a quem apelar, se o próprio Estado, a serviço dos mandões, dos coronéis, dos chefes políticos, estava contra ele. É no mínimo um motivo para reflexão.
No livro é possível perceber uma leitura de mundo, uma impressão sensorial muito grande do autor em relação à linguagem, ao cenário. Como formatou isso?
Vivi muito tempo na roça, trabalhei 20 anos como agrimensor e percorri a cavalo toda a região onde Antônio Dó viveu. Freqüentei terreiro para saber de que forma Antônio Dó tinha o corpo fechado; não poderia descrever uma passagem de um terreiro sem ter ido a um, ou sua vida no garimpo sem viver pelo menos uma semana lá. Uma grande diferença entre conhecer o sertão e descrever o sertão como fez o Guimarães Rosa – apesar dele ter descrito muito melhor que eu - porque ele apenas percorreu a cavalo de Cordisburgo a Paracatu acompanhando a boiada e ouvindo histórias, mas não entrou no sertão. Eu sei o que é uma vereda realmente; o que é dormir ao relento; cavalo peado de pé e mão; comer rapadura com farinha numa viagem; passar uma semana debaixo de chuva viajando a cavalo; eu fiz isso. Não em razão do livro, mas pelo meu trabalho como agrimensor. Além do livro, reuni ao longo desses anos uma coletânea de palavras do linguajar da região e vou lançar um dicionário com o vocabulário sanfranciscano. Queria lançar junto com o livro, mas não deu. Já está no prelo e deve sair em março.
Tem algum projeto de transformá-lo em roteiro de filme?
Tive umas conversas com Teo Azevedo e depois com Jackson Antunes sobre o assunto, mas ainda não tem nenhuma proposta certa. Depois outro grupo me pediu um exemplar e eu enviei. Vamos ver o que vai acontecer.
Qual foi seu maior aprendizado na produção desse livro?
Respeito à pessoa humana. A história de Antônio Dó é um exemplo para que não possa nem deva prosperar qualquer perseguição, seja ela de que natureza for.
Para quem vive de desafio, vencido um é lançado o próximo.
É,
mas sinceramente, não tenho mais uma projeção de vida
que me autorize lançar um desafio dessa envergadura. Pode até
ser que alguma coisa seja produzida, mas de menor escala. Eu até falo
no livro, e talvez seja onde tem um pouco de Petrônio: Montaigne (refere-se
ao escritor e ensaísta francês Michel Eyquem de Montaigne) nos
afirma que a gente não deve pensar na morte, deve cuidar da vida plantando
nossas couves. Eu vou continuar plantando minhas couves.
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Serrano de Pilão Arcado – A Saga de Antônio Dó
Petrônio Braz.
Romance, 2006
Editora Mundo Jurídico, 596 páginas
(fotos: Manoel Freitas)

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