PIRAPORA: MORADA DO PEIXE
Zanoni Neves
Introdução
Com este artigo, desejamos corrigir um erro histórico que já dura mais de um século, ou seja, a tradução do topônimo Pirapora da Língua Tupi para a Língua Portuguesa. O referido termo é traduzido da seguinte forma na cidade mineira que tem aquele nome: salto do peixe ou onde o peixe salta. Desejamos demonstrar que a tradução correta é lugar onde moram os peixes ou lugar onde os peixes habitam ou ainda morada do peixe. Nesse mister, mencionamos a provável origem da tradução equivocada, consultando também os livros de pesquisadores e estudiosos da Língua Tupi que nos possibilitaram conhecer a tradução correta.
Este artigo foi publicado anteriormente em livro (Neves, 1999), sendo revisto e ampliado para esta publicação.
O nome da cidade
A palavra PIRAPORA é formada pelos substantivos PIRÁ e PORA
originários da Língua Tupi.
Em seu Dicionário da Língua Tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil, publicado originalmente em 1858, Antônio Gonçalves Dias revela-nos o significado da palavra PORA, mencionando inicialmente uma primeira tradução: “Habitador, habitante.” (In: Bueno, 1984, p. 471) Em seguida, busca outros significados, visando aprofundar o conhecimento do termo: “Em sentido mais lato, traduziríamos pora, o que vive em algum lugar em conseqüência da sua própria natureza, ou em virtude de uma causa superior.” (Ibidem, p. 472).
Por fim, o grande poeta indianista cita algumas expressões da Língua Tupi como tapuya caapora, e conclui: “Em todos estes exemplos a dicção pora indica o que vive, o que existe, mas de existência intimamente ligada a um lugar ou objeto determinado.” (Ibidem, idem) É evidente que as três traduções não se contradizem. O autor procura revelar ao leitor os significados da palavra. Nascido na Província do Maranhão em 1823, Gonçalves Dias foi um estudioso da Língua Tupi, mas, como filho de uma mestiça, certamente conheceu muitas palavras e expressões remanescentes da Língua Geral, utilizadas em seu tempo e em seu processo de socialização. (1) Nesse particular, seu conhecimento como estudioso daquele idioma deve ser ressaltado.
O Professor Francisco da Silveira Bueno é mais sucinto. Para esse autor, o substantivo PORA significa “o que está dentro de, o conteúdo; habitante de; resultado de efeito, cicatriz, sinal.” (1984, p. 263). Vejamos agora a opinião de um gramático da Língua Tupi, o Professor Eduardo de Almeida Navarro: “PORA é um substantivo que significa conteúdo, o que está contido em, o que está dentro de, o habitante.” (1999, p. 414) Mas significa também marca, sinal, conforme o mesmo autor. (Ibidem, p. 614)
O significado do substantivo PIRÁ também é consensual entre os dicionaristas e gramáticos. A tradução de PIRÁ é peixe conforme Gonçalves Dias. (In: Bueno, 1984, p. 469) A mesma tradução é aceita pelo Professor Eduardo de Almeida Navarro. (1999, p. 614) Mas, em seu vocabulário da Língua Tupi, Silveira Bueno acrescenta outra informação: “PIRÁ – s.m. Peixe, mas o peixe de pele ou de couro, que não tem escamas.” (Bueno, 1984, p. 253)
Diversos vocábulos da Língua Portuguesa falada no Brasil são originários do Tupi antigo, tendo formação semelhante ao topônimo Pirapora, ou seja, são compostos por dois substantivos ou por dois radicais. Vejamos alguns exemplos encontrados nos dicionários citados na bibliografia:
• Caapora (ou caipora) é formado pelo substantivo “caá”, que significa mato, e “pora” cuja tradução é habitante de, conforme já mencionamos. Portanto, caapora significa habitante do mato.
• Catapora é uma corruptela de “tatapora”, da língua tupi, cuja tradução é fogo interno, quentura interna. “Tatá” significa fogo. Aqui, a idéia que está subjacente ao substantivo “pora” é a seguinte: o que está dentro de.
• Itapora deve ser assim traduzido: lugar que tem pedra, pedregoso. Portanto, pode-se perceber a idéia de conteúdo. “Ita”, pedra, rocha, rochedo.
• Mundepora é traduzido como preso em armadilha, prisioneiro. Neste caso, também está subentendida a seguinte idéia: habitante de prisão ou de armadilha.
• Muruapora é traduzida da seguinte forma: gravidez, estado da mulher ou das fêmeas durante a gestação, prenhez. Está subjacente a idéia de conteúdo.
• Poracá que significa cesto para pescaria. Subjacente, a idéia de conteúdo.
• Pypora que significa as marcas dos pés, as pegadas deixadas pelos pés. Neste exemplo, a tradução do substantivo “pora” é sinal, marca. “Py”, pé, pata, garra.
O Professor Eduardo de Almeida Navarro, da Universidade de São Paulo, cita expressões da Língua Tupi que também comprovam a mesma tradução do substantivo PORA para a Língua Portuguesa, confirmando os autores e dicionários já mencionados:
• ‘ara pora – o que está
contido no mundo, o habitante do mundo.
• Kamusi pora – o conteúdo do pote.
• Nde îuru pora – o que está em tua boca.
• Xe r-oka pora – o que está em minha casa. (Navarro, 1999,
p. 414)
Antônio Gonçalves Dias também cita uma expressão da Língua Tupi que contribui para dirimir dúvidas:
• Pirá oçú-paraná oçú-pora - peixe grande que vive no mar, isto é, a baleia. (In: Bueno, 1984, p. 472)
A baleia é um habitante do mar. O radical “pora” significa “conteúdo”, “lugar que tem...”
À semelhança do topônimo Pirapora, outras palavras são formadas pelo radical PIRÁ, que deu origem a um número muito grande de palavras e expressões pertencentes à Língua Portuguesa falada no Brasil. Vejamos alguns exemplos:
• Piracema (pirá + cema), ou seja, saída dos peixes para desova. Alguns cardumes sobem os rios em direção às nascentes no período da desova.
• Piranha (pirá + anha), ou seja, peixe de dentes cortantes.
• Pirapitinga (pirá + pitinga), ou seja, peixe de casca branca. O radical pitinga significa de casca branca.
• Pirarara é formado da seguinte forma: pirá, peixe; e arara, a ave que tem o mesmo nome na Língua Portuguesa. Pirarara é um peixe da Amazônia cuja cor lembra a arara.
A exemplo de Pirapora, diversos topônimos originaram-se do termo PIRÁ: Piratininga, Piraí, Piraím, Piriá, Piracanjuba, Piracaia, Pirajussara, Piraquara, Pirapama, Piracicaba, Pirajá, Piraju, Pirajuy, Pirapanema, Piraquê, Pirassununga, Pirajuy, Piratininga etc.
Curiosamente, há substantivos formados pela palavra “pirá”, do Tupi, acrescida de um termo da Língua Portuguesa, por exemplo, pirá-bandeira, que é o nome de um peixe da família dos taquissurídeos. (Cunha, 1998, p. 236)
A origem do equívoco
Conforme Richard Francis Burton, viajante inglês que explorou o rio São Francisco em 1867, a tradução da palavra pirapora para a língua portuguesa seria: lugar onde o peixe salta. (1977, p. 175 - nota 1) Burton baseia-se em informação do Coronel Accioli, cronista do Império, que viajou pelo grande rio na primeira metade do século XIX. É curioso notar que esta tradução de Accioli e Burton atravessou mais de um século sem ser questionada. Em Pirapora, foi assumida oficialmente como verdadeira, sendo ainda aceita nos dias atuais.
O Professor Silveira Bueno
menciona uma palavra que pode confundir os estudiosos da Língua Tupi
menos atentos: “Pirapurá – peixe que salta”. (1984,
p. 255) Na Língua Tupi, existe o verbo POR (intransitivo) que tem a
seguinte tradução: saltar, pular. (Navarro, 1999, p. 614) A
tradução destas duas palavras pode explicar o equívoco
do Coronel Accioli.
No período de piracema, pode-se observar que os peixes saltam sobre
as pedras na cachoeira de Pirapora (MG). Este fato possivelmente explica a
opção local pela tradução proposta por Accioli
e aceita por Richard Burton.
Conclusão
Para esclarecer a questão de maneira definitiva, vejamos mais uma vez a opinião do tupinólogo e Professor Francisco da Silveira Bueno, da Universidade de São Paulo. Na seção de seu livro dedicada aos topônimos de origem tupi, encontramos o verbete Pirapora: “Salto do rio S. Francisco e cidade em Minas Gerais. Cidade em S. Paulo, perto do salto do mesmo nome no rio Tietê. De pira-pora, a morada do peixe.” (Bueno, 1984, p. 583) Portanto, esta é a tradução mais correta para o nome da cidade.

| Copyright
© 2006 - 2008 - www.velhochico.net - Contato:
(38) 3741-1315 - 8823-0753 - Todos os direitos reservados. - Melhor
visualizado em 1024 x 768 |
