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Meninos do São Francisco - Uma crônica feita pelo fotógrafo Luis Osete - Falando sobre os meninos de Juazeiro, que são como os nossos, com a diferença de que os nossos saltam do cais. Veja as fotos e o texto

O calor, em Juazeiro, sertão da Bahia, provoca muito mais do que arrepios. O clima semi-árido é um ensejo para um mergulho profundo nas águas do Rio da Integração Nacional – divisa natural entre as cidades de Juazeiro-BA e Petrolina-PE. Mas, no vai-e-vem da vida ribeirinha, poucas pessoas se aventuram a dividir o espaço aquático com coliformes fecais e metais como cádmio, mercúrio, zinco, chumbo etc., provenientes de esgotos domésticos e industriais lançados diariamente no rio. Assoreamento, desmatamento, erosão e poluição são problemas antigos enfrentados pela população do Vale do São Francisco.

Só não são mais antigos do que a herança indígena do banho de rio. Desde os primeiros índios Cariris que habitaram o solo eutrófico desta parte do sertão – diga-se de passagem, os mesmos que encontraram em uma grota nas barrancas do São Francisco a imagem de Nossa Senhora das Grotas (padroeira da cidade) - o amor pelo banhar-se é parte da paisagem local. O próprio Darcy Ribeiro, em seus “Diários Índios” (1996), já relatou fartamente os banhos que os Urubu-Kaapor tomavam: "Esta gente se banha que não pára. A cada instante chega um molhadinho do córrego e, mal seca a água do corpo, volta a molhar-se".

Sem “dragões tatuados no braço”, nem “calções corpo aberto no espaço”, meninos com idade entre dez e 15 anos dificilmente sabem contar a história dos índios Cariris e Urubu-Kaapor, mas são devotos da mesma fixação pelos mergulhos fortuitos na margem direita do Rio São Francisco, mesmo furtando aos poucos a saúde que lhes falta. Com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em torno de 0,683 (a média nacional é 0,800), Juazeiro pena para oferecer à população serviços básicos, como um mergulho saudável nas águas do rio. Para a fatia da população com idade entre dez e 15 anos há um imperativo lógico: ser criança. E não é nada fácil ser criança em Juazeiro.

A ocupação desordenada e sem planejamento da área urbana atrofiou qualquer possibilidade de lazer no centro da cidade. A infra-estrutura decadente não conta com espaços de entretenimento, como parques, instalações recreativas e áreas livres. Como conseqüência, por mais absurdo que possa parecer, a coisa mais difícil para um pedestre, em Juazeiro, é andar pela calçada, especialmente no final da tarde, quando as pessoas resolvem ocupá-las para prosear as dores e delícias do dia.

Os “corações de eterno flerte”, dos “meninos vadios”, só encontram respaldo na beira do rio – melhor lugar para abrasar o calor de uma tarde sertaneja. O “salto mortal” é a principal diversão para esquentar ainda mais o sangue antes do secular mergulho nas águas do Velho Chico. Adaptado à areia fofa da beira do rio, o salto mortal é acompanhado de muita concentração e seriedade por parte das crianças, como se deveras representasse um ritual de iniciação num determinado grupo – os que sabem saltar.

Há quem veja esta prática como uma possibilidade de recomeço, fuga do lugar comum, busca da perfeição técnica, superação, renovação etc., mas, sozinhos ou em dupla, o que as crianças adoram mesmo é serem percebidas, no clique da câmera ou no piscar de olhos dos transeuntes. Sem platéia não há espetáculo. Talvez os meninos não saibam, mas o filósofo irlandês George Berkeley já definiu há muito tempo a máxima deles: “Ser é ser percebido”.

E para quem trafega nas dez barcas que diariamente se revezam na travessia do rio, entre as cidades de Juazeiro e Petrolina, é impossível não perceber a vitória da infância no olhar de satisfação dos aventureiros ribeirinhos. Com o olhar voltado para minha câmera, eles logo providenciaram um campeonato de saltos mortais. A tensão flutuou em minha objetiva, a poucos passos do rio, e meu olhar oscilou entre a correnteza multicor do São Francisco e as piruetas voadoras de seus filhos.

A cada salto, fotógrafo cúmplice das loucuras humanas, só restou-me rezar (eu não sei cantar) “para Deus protegê-los”. Mas, devo confessar, a desenvoltura dos meninos é algo arrebatador - lindo e perigoso. Foi como se, de repente, eu me percebesse fotógrafo de um espetáculo circense, e tal como a escritora norte-americana Marion Zimmer Bradley, autora do livro “salto mortal”, tomado de um infindável encantamento.

Passado o espetáculo, que se repete com mais força nos finais de semana, fiquei pensando: Do Hawaii ao Haiti, as ondas breves do rio são como os sonhos, sempre ficam à espera do próximo e, portanto, levam e trazem as alegrias e tristezas das águas de outrora... Só me resta desejar que eles desejem saltar muito além das areias fofas da margem direita do Rio São Francisco, no concorrido campeonato de saltos mortais da vida.

Luís Osete •


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