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Todos nós que temos raízes interioranas vivemos nossas primeiras experiências como pescadores de uma forma bastante simples e mesmo assim repleta de emoções e alegrias. Eu tive a sorte de ter crescido numa cidade do interior de Minas, e tendo parentes fazendeiros, com meus nove a dez anos comecei a experimentar a satisfação de pescar lambaris, bagres, ma
ndis e piaus com varinhas de bambu ou cana-da-índia, linhas de algodão (e depois, de náilon), chumbadas improvisadas, anzóis comprados a granel em armazéns e... minhocas.

As minhocas que nós usávamos eram de dois tipos: umas minhocas moles, de cor clara e lentas, de pouco movimento; e as famosas minhocas de argola, ou puladeiras, que são maiores e muito espertas, e eram as preferidas dos peixes. A gente mesmo arr
ancava as minhocas, na horta da fazenda, e improvisava um “minhoqueiro” com uma latinha de extrato de tomate e uma alça de arame. Essas minhocas de primeiras pescarias tinham no máximo um palmo de comprimento.

Quando me mudei para Belo Horizonte vi pela primeira vez, à venda numa loja de pesca, o famoso minhocuçu. Não podia então imaginar que essa espécie de minhoca viria a ampliar e multiplicar minhas aventuras de pesca, o que me levaria a concordar com os que dizem que, quando se fala em isca natural, o minhocuçu é a isca universal. Predileto dos grandes bagres, como o jaú e os surubins, essa minhoca gigante (atinge até um metro de comprimento) praticamente serve para a pesca de todos os peixes esportivos de água doce do Brasil. Já pesquei com minhocuçu e vi pescarem, entre outros, os seguintes peixes: dourado, pacu, traíra, jaú, pintado, cachara, pirarara, piau, piapara, piauçu, pirapitinga, tambaqui, matrinxã, mandi, palmito, bico de pato, jurupoca, corvina, tabarana, barbado, cuiu-cuiu, armau, serrudo, e tantos outros que mostram a eficiência dessa isca.

O minhocuçu tem para o pescador esportivo as seguintes vantagens: seu diâmetro, de cerca de um e meio a dois centímetros, é bastante para disfarçar o anzol e eventualmente cobrir o empate de aço; é uma isca natural de textura firme que, bem cuidada, sobrevive facilmente ao período de duração da pescaria; e, principalmente, essa minhoca tem um atrativo natural incomum para os peixes, o que explica o seu uso quase universal, embora sua ocorrência se limite a uma região de Minas Gerais.

Pesquisas sobre esse anelídeo gigante (mais complicado é o nome científico: Rhinodrilus alatus) confirmam que sua existência se limita à região de cerrado compreendida por um triângulo formado pelo rio São Francisco e seu afluente das Velhas, cuja base ao sul está nos municípios de Prudente de Morais, Sete Lagoas, Inhaúma, Maravilhas, Papagaio e Pompéu, indo até Lassance, quase no vértice do triângulo. Entretanto, as maiores áreas de ocorrência estão nos municípios de Sete Lagoas e Paraopeba, onde se concentram também os extratores e comerciantes.

A exploração (e comércio) do minhocuçu é uma ocupação que hoje é a única atividade para milhares de pessoas, fonte de sustento para outras tantas famílias. Entretanto, essa atividade tem gerado conflitos entre extratores e proprietários de terras, em função de invasões de propriedades, revolvimento dos solos, e uso do fogo para limpar os locais de extração. Além desses problemas, a legislação atual, tanto federal como estadual, considera crime a extração, comércio e transporte de espécies da fauna silvestre, e o minhocuçu chegou a ser considerado como espécie ameaçada de extinção, estando atualmente classificado na categoria “em perigo”.

Soubemos que está em desenvolvimento um “Projeto Minhocuçu”, que objetiva o uso sustentável dessa minhoca gigante, através de um processo de manejo adaptativo, que vincula a pesquisa científica à ação efetiva junto aos diversos envolvidos. Estamos torcendo para que se encontre o “caminho do meio”, de modo a proteger esse animal e ainda manter a disponibilidade dessa isca tão apreciada pelos peixes e, também, pelos pescadores.



Fonte: Vitor de Paula

Minhocuçu, a isca milagrosa
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