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Os remeiros do São Francisco na literatura
Zanoni Neves - Mestre em Antropologia Social – Unicamp Coordenador do Núcleo de Estudos da Cultura Mineira
O trabalho
Se tomarmos os meios de produção como critério para interpretar
a posição social dos remeiros, percebemos que eles integravam
o contingente das classes subalternas que tinham em comum a condição
de vendedores de força de trabalho. Os remeiros alugavam-se nas barcas
de figura em troca de salários. Seus patrões, os barqueiros,
faziam o comércio ambulante e transporte a frete ao longo da orla fluvial
– em cidades, povoados, sítios e fazendas. A força de
trabalho era contratada por viagem redonda, isto é, por jornada de
ida ao porto de destino e retorno ao porto de origem.1 Se a viagem durasse
três ou quatro meses, o salário não se alterava. Remunerava-se
o trabalhador antecipadamente. No contrato verbal entre o remeiro e o barqueiro,
pagava-se a metade do salário; no final da viagem, a outra metade.
Essa forma do salariado revela de maneira bastante evidente que a força
de trabalho é uma mercadoria.
Inicialmente, vamos conhecer o trabalho do neófito – o chamado
reculuta (recruta) – na coxia das barcas conforme a terminologia criada
pelos remeiros.2 Vejamos, a seguir, um trecho do conto regionalista de D.
Martins de Oliveira, cujo teor está em consonância com os relatos
que obtivemos em entrevistas:
Sua primeira viagem foi subindo o rio; custaram-lhe caro os primeiros dias
de trabalho. Era demais pesado para sua mocidade manejar a zinga de sol a
sol, carregando-a de popa à proa, levantá-la nos braços,
atirá-la na água até que a ponta alcançasse o
fundo, firmá-la ao peito e, com todo o esforço das pernas, impulsionar
a lerda embarcação, em marcha continuada, incessante e mecânica
de dínamo.
As mãos se lhe inflamaram, o peito abriu-se-lhe em chaga e, com três
ínguas, a febre traumática o prostrava à noite. Queimou
a ferida do tórax com sebo quente e no outro dia foi puxar a zinga
do outro lado da coxia. (1931, p. 27) Até
a formação do calo no peito, o trabalhador passava por uma longa
provação. Podemos dizer que era a sua iniciação.
O sofrimento era indizível. Alguns não o suportavam e fugiam
da tarefa. Aliás, a fuga era uma das formas mais comuns de resistência
às más condições de trabalho. Além do sebo
quente, o toucinho quente era também utilizado para cauterizar a ferida
provocada pela vara. Às vezes, era necessário segurar firmemente
as pernas e os braços dos reculutas, pois a terapia não era
propriamente indolor. Se o remeiro persistia no trabalho, o ferimento inicial
ia mudando de aspecto. Vejamos o que nos relata o contista Accioly Lopes:
''O sangue pisado, fazendo ferida crônica – o grande medalhão
com o qual o rio condecora a laia dos remeiros'' (1978, p. 41). Ironicamente,
a população ribeirinha se referia ao calo como a medalha e ao
instrumento de trabalho (a vara) como a caneta.
É ainda Accioly Lopes quem assim resume o trabalho dos remeiros nas
barcas de figura: ''Dobrando o peito que tine sobre a ponta da vara, ou acochando
com os dedos duros do calejo o cabo do remo'' (idem, p. 50). Nas viagens rio
acima, utilizava-se o varejão (a vara ou vara ferrada) para impulsionar
a embarcação; nas viagens rio abaixo, os grandes remos, que
de um modo geral eram manejados por dois ou três homens.
Alguns cronistas em viagem pelo rio São Francisco descreveram também
o trabalho dos remeiros. É importante conhecermos a narrativa do capitão
Durval Vieira de Aguiar que lá esteve no princípio dos anos
80 do século XIX:
Munidos de grandes varas, ferradas na ponta, encostam a outra extremidade
ao caloso peito, sem nenhum amparo, deixando muitas vezes, com o esforço,
escorrer o sangue por garbo.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Enquanto os vareiros de bombordo empurram de proa a popa, os de estibordo
voltam de popa a proa, de forma que uma banda só afrouxa as varas quando
a outra as firma no leito do rio. (1979, p. 33)
O calo, que servia de anteparo no contato do instrumento de trabalho com o
peito do remeiro, às vezes, fendia-se tendo em vista seu esforço
para fazer a embarcação avançar rio acima, conforme relato
de viagem de Orlando Carvalho (1937, p. 87). Eram comuns os sangramentos nessas
ocasiões.
Os acidentes em que a vara se quebrava, e o corpo do trabalhador era traspassado
pela lasca, são descritos nas entrevistas de ribeirinhos (Neves, 1998,
p. 205-6). Mas a morte violenta está presente também no romance
regionalista de Osório Alves de Castro: ''Salu morreu arrebentado na
zinga, botando sangue pela boca na água do Quebra-Botão'' (s./d.,
p. 19). Topônimo sempre presente no discurso dos remeiros, Quebra-botão
era um trecho de água dura do rio Corrente onde os remeiros faziam
um grande esforço para ultrapassá-lo nas viagens rio acima.
O rio Corrente é um dos afluentes navegáveis do São Francisco
à margem esquerda. Vale esclarecer também que zinga é
a palavra erudita que o romancista utiliza em substituição a
vara, varejão ou vara ferrada, de uso regional.
Na terminologia dos trabalhadores, vale destacar algumas expressões
que identificavam itinerários: carreira grande designava a viagem de
Juazeiro a Januária; meia carreira, de Juazeiro a Santa Maria da Vitória
no rio Corrente; carreira inteira, de Juazeiro a Pirapora. Às vezes,
utilizava-se esta última expressão para designar o itinerário
de Juazeiro a Januária. A viagem a Barreiras era também considerada
meia carreira. A duração de uma viagem a Santa Maria podia ser
de um a dois meses; a Januária, de três a cinco meses. O comércio
– a demora mais ou menos prolongada em cada porto para retalhar a mercadoria
ou nas fazendas para comprar a produção – é que
determinava o tempo de viagem.
No século XX, as áreas do Rio de Baixo e de Sobradinho eram
as que ofereciam força de trabalho mais qualificada para a faina nas
barcas. Mas em Juazeiro residia a maioria dos barqueiros e, por conseguinte,
ali tinham lugar as contratações. Em Januária, Xique-Xique
e Santa Maria da Vitória, era possível também recrutar
remeiros experientes. Em meados do século XIX, o engenheiro Henrique
Halfeld mencionou a possibilidade de contratação de trabalhadores
em Barra do Rio das Velhas (atual Barra do Guaicuí-MG). Em 1748, Dom
Manoel da Cruz em sua viagem com destino a Mariana (MG) contratou nova equipagem
naquela localidade (Ávila, 1967, p. 379).
No século XIX, era comum contratar-se trabalhadores por travessia,
que em geral tinha a extensão média de 30 léguas marítimas,
segundo Halfeld. Vejamos, a seguir, sua relação de travessias:
a primeira, entre a cachoeira de Pirapora e a vila de São Romão,
com 30 léguas de extensão; a segunda, de São Romão
ao Porto do Salgado (atual Januária), com 26 léguas e meia;
a terceira, de Salgado a Carinhanha, com 30 léguas e meia; a quarta,
de Carinhanha a Bom Jesus da Lapa, com 24 léguas e meia; a quinta,
da Lapa a Bom Jardim, com 26 léguas e meia; a sexta, de Bom Jardim
à vila da Barra do rio Grande, com 29 léguas e meia; a sétima,
de Barra a Pilão Arcado, com 29 léguas; a oitava, de Pilão
Arcado a Sento Sé, com 31 léguas e meia; a nona, de Sento Sé
a Juazeiro, com 18 léguas e meia (Halfeld, 1860, p. 1-2). Richard Burton
legou-nos uma relação de travessias semelhante à de Halfeld.
Acreditamos que no século XIX os contratos por travessia eram regra
geral apenas para o transporte de viajantes a exemplo de Burton e Halfeld.
É possível que houvesse contratação de barcas
por travessia, no transporte de cargas a frete. Na linguagem dos remeiros
do século XX, era usual a palavra travessa; por exemplo: travessa da
afinação, trecho entre Morpará e Bom Jardim (BA), e travessa
da faca fora, trecho entre Bom Jesus da Lapa e Carinhanha (BA). Nesses trechos
de nomes curiosos, não havia o auxílio dos ventos, os remeiros
empurravam a barca rio acima, trabalhando com as varas de modo penoso.
Em seu romance Jandaia em tempo de seca, Petrônio Braz menciona o trabalho
do mestre, ou seja, do piloto da barca: ''Em pé, na popa elevada do
modesto brigue, o piloto segurava o leme, manobrando com segurança
os movimentos da embarcação'' (2002, p. 60). Natural de São
Francisco (MG), esse autor nasceu em 1928. É importante esclarecer
que o leme da barca era um instrumento simples, feito de madeira e composto
de duas partes: a cana do leme, que era empunhada pelo piloto, e o leme propriamente
dito que ficava dentro d'água, movimentando-se lentamente à
semelhança da cauda de um grande peixe. Os mestres evitavam os encalhes
nos bancos de areia, as colisões em pedras e troncos submersos, manejando
com habilidade esse instrumento de trabalho.
Os mestres e remeiros, que navegavam no Rio de Baixo, eram contratados também
para a navegação do Rio de Cima, isto é, no trecho entre
Juazeiro e Pirapora e em seus afluentes. Muitos deles eram contratados porque
eram hábeis trabalhadores, por seu conhecimento das condições
de navegabilidade.
Se o dono da barca tinha um comércio numa cidade ou vila, sua embarcação
podia ser uma extensão ou filial do estabelecimento comercial. O proprietário,
nesse caso, nomeava uma pessoa de sua confiança, que o substituía
nas viagens comerciais. Podia ser um filho ou um parente próximo. Esse
preposto chamava-se encarregado. Os remeiros ironicamente o chamavam de carregado.
Mas apenas os conceitos de meios de produção e relações
de trabalho não são suficientes para interpretar a posição
daquela classe social. A natureza do trabalho e sua marca no corpo do trabalhador,
a cor da pele e o status inferiorizado possibilitam-nos entender a formação
do estigma, que será interpretado mais adiante.
Negros e mestiços
Os remeiros integravam o contingente de negros e mestiços que ocupavam
posição social subalterna na região. A abolição
da escravatura só alterou sua condição no que diz respeito
ao regime de trabalho: do trabalho servil, passaram ao trabalho assalariado.
Mas vale ressalvar que no período escravocrata havia também
homens livres trabalhando nas barcas do São Francisco.
A presença de populações negras no Médio São
Francisco é bastante remota. Em sua Relação de uma missão
no rio São Francisco, o padre Martinho de Nantes relata os primeiros
contatos do homem branco com os índios cariris do São Francisco
nos últimos anos do século XVII. Menciona também a existência
de escravos negros que eram usados como força de trabalho nos curralos
ou fazendas à margem do rio (Nantes, 1979, p. 52). Em 1867, sir Richard
Burton correlacionava a cor da pele dos ribeirinhos com a posição
social: ''Os habitantes são todos mais ou menos escuros, (...) aqui
o rosto mais claro é sempre indício de uma posição
social mais elevada'' (1977, p. 161). Os proprietários rurais e comerciantes
– em geral, de origem portuguesa – eram brancos, ao passo que
a massa de trabalhadores era constituída de escravos negros e mestiços.
Mas havia homens livres, resultantes da miscigenação ancestral
que ocorreu na região.
Desde o início da colonização do rio São Francisco,
portanto, os negros ocuparam uma posição subalterna na estrutura
social. Escravos até 13 de maio de 1888, passaram após esta
data à condição de homens livres, isto é, trabalhadores
que, em troca de alguma forma de remuneração, se empregavam
na lavoura ou em pequenos ofícios urbanos como ferreiros, oleiros,
aguadeiros etc. Não foi outro o destino dos afro-descendentes mestiços
– os chamados mulatos e cafuzos nascidos na região. Trabalhavam
a terra como parceiros, agregados, camaradas ou em pequenas unidades de produção
familiar sem título de posse da terra. Muitos eram também pescadores.
Depois de se referir às condições de trabalho nas barcas,
Teodoro Sampaio, que viajou pelo São Francisco em 1879, contribui com
um texto primoroso para informar-nos acerca da composição racial
da classe dos remeiros:
Vê-se ali, entre eles, todos os matizes da população policroma
da nossa terra. O caboclo legítimo, o negro crioulo, o cariboca, misto
do negro e do índio, o cabra, o mulato, o branco tostado de cabelos
castanhos e às vezes ruivo, todas as raças do continente e os
produtos dos seus diversos cruzamentos ali estão representados. (2002,
p. 94-95)
Em seu conto ''A araponga'', Accioly Lopes confirma as informações
de Sampaio e de nossos entrevistados:
Quando acontece branco virar remeiro, que é o caso de Miguel Faiscô,
aí a marca do trabalho toma outra feição. Tanto a ferida,
quanto a estória. Remeiro, de modo geral, é sempre caboclo,
negro ou mulato. Dizem que estes têm mais fibra. (1978, p. 19)
A primeira frase da citação acima parece denotar que a presença
de homens brancos como força de trabalho nas barcas não era
muito freqüente. A ferida a que se refere o autor é a marca da
vara (instrumento de trabalho) no peito do trabalhador.
Os remeiros eram, sobretudo, negros e mestiços. Em sua viagem de canoa
de Sabará ao Atlântico, Richard Burton teve a oportunidade de
conhecer os escuros barqueiros, ou seja, os remeiros do rio São Francisco
(1977, p. 209).
As preocupações com origem e pureza racial estavam presentes
entre as oligarquias da ribeira e expressam-se na literatura de ficção.
Wilson Lins escreveu em seu romance Remanso da valentia:
Descendente de velhos sesmeiros reinóis, que se tinham deixado transformar
em vaqueiros, nos primórdios da colonização, o velho
Ormuth guardava o porte de um grão-senhor, orgulhoso de sua progênie,
pelo que evitava o quanto possível entreter conversação
com pessoas que não considerasse do seu nível.
(...) Fumando pacatamente o seu cigarro de palha, não estivera alheio
de todo à troca de palavras havida entre o seu primo e os dois correligionários,
embora se tivesse mantido ausente por não lhe agradar que um Castelo
Branco de muitas posses, como o major Oscar, estivesse perlengando com Fidelino
e Antônio Borja, boas pessoas, é certo, mas, na sua opinião,
dois mestiços sem tradição de família. (1967,
p. 24-25)
Nos livros de Wilson Lins, o tema do coronelismo são-franciscano está
presente. O referido autor fala com conhecimento de causa, pois era filho
do coronel Franklin Lins de Albuquerque, chefe político de Pilão
Arcado (BA) e aliado político dos Castelo Branco, de Remanso (BA),
nas primeiras décadas do século XX.
Em estudo bem fundamentado, o professor Fernando Altenfelder Silva interpretou
o preconceito racial existente em duas comunidades do Médio São
Francisco: Xique-Xique e Marrecas (1961, p. 153-60). Edyla Mangabeira Unger
surpreendeu-se com o preconceito explícito contra negros, observado
em Lagoa de Dentro (BA) (1978, p. 56-57).
Discriminação social e estigma
Nas referências às barcas do Médio São Francisco,
diversos termos foram utilizados para designar seus tripulantes. Cronistas
dos séculos XIX e XX ora os chamavam de barqueiros, ora de remadores
ou, até mesmo, de vareiros. As populações ribeirinhas,
entretanto, preferiam a palavra remeiros para identificar aquela classe de
trabalhadores do rio.
A partir da criação da Capitania dos Portos em Juazeiro (BA)
nas primeiras décadas do século XX, um novo termo ganhou uso:
moços. Esta palavra, que passou então a ser utilizada pelos
membros da classe dos remeiros para se auto-identificarem, advém possivelmente
da expressão moço de convés usada na referida instituição
e de uso corrente nas empresas de navegação. No discurso dos
ex-remeiros, nossos entrevistados, era também habitual o uso da expressão
moço de barca. Na verdade, os trabalhadores das barcas passaram a repudiar
a palavra remeiro quando utilizada com sentido pejorativo nas cidades ribeirinhas.3
Já o termo moço era a palavra-chave de sua identidade. Portanto,
as palavras remeiro e moço (e moço de barca) podiam tornar-se
antípodas e reveladoras da tensão existente entre aqueles trabalhadores
do rio e segmentos da sociedade majoritária. Não raro, essa
tensão descambava para o conflito.
No romance regionalista, pode-se perceber os contornos da posição
social dos remeiros. Em Porto calendário, de autoria do senhor Osório
Alves de Castro, um diálogo entre duas personagens mostra alguns traços
das representações vigentes nas cidades ribeirinhas:
— Hum!... se faz? Remeiro já está desgraçando donzelas
a troco de um pedaço de rapadura. Será que o tal século
vinte será pior que os remeiros?
— Pior que o remeiro, só mulher desvalida... (s./d., p. 21)
Em nosso livro mencionado anteriormente, interpretamos esse diálogo
incorporando entrevistas concedidas por ribeirinhos sobre os remeiros. Nesse
particular, os casos regionais são valorizados como matéria
de interpretação. Vale esclarecer que, na citação
acima, as personagens conversam sobre o advento do século XX sem compreender
muito bem do que se trata. Mas importante é perceber inicialmente os
contornos da condição social a que se submetiam aqueles trabalhadores.
O romance Porto calendário consegue caracterizar, em seus traços
fundamentais, o ethos da comunidade ribeirinha onde viveu seu autor: Santa
Maria da Vitória (BA) às margens do rio Corrente. Mas outra
contribuição muito importante de Osório Alves de Castro
é tornar possível a reconstituição da vida social
dos remeiros. Assim, a posição social daquela classe de trabalhadores
tem seus contornos sugeridos pelo autor: ''os dois rapazes se alugaram numa
barca e ser remeiro era como se as criaturas perdessem a condição''
(s./d., p. 94). Trabalhar nas barcas implicava assumir um status inferiorizado
do ponto de vista social e marcado pela discriminação e desqualificação
social; enfim, pelo estigma.
Ao perguntarmos se os trabalhadores e seus patrões mantinham relações
de compadrio, a resposta de um ex-remeiro foi negativa, acrescentando que
os proprietários de barca os consideravam uma classe muito baixa.4
Mas as representações que denotam a posição social
dos moços de barca são reveladas não apenas por eles
e seus patrões. Uma típica representante das camadas intermediárias,
socializada no longo convívio com a gente ribeirinha, referiu-se aos
remeiros como a última classe nas sociedades da região. ''Quando
alguém não tinha mais nada a fazer na vida, ia ser remeiro.''5
Percebe-se alguma coerência entre os discursos do ex-moço de
barca e da entrevistada, pertencente a outra camada social.
Por intermédio do conto ''A araponga'', de Accioly Lopes, é
possível conhecermos também o estigma que caracteriza a posição
social dos moços de barca:
Miguel Faiscô é remeiro. Remeiro do São Francisco não
é gente. Não pode ser gente. Tem os pés redondos e frios
como pacomão. Pés-de-mandioca-puba. Miguel sabe que é
assim. Sabe. Por isso, sente-se, quando vestido de calção nu
da cintura para cima, deslocado do mundo dos outros homens. (1978, p. 19)
Esta citação mostra-se coerente com os trechos de entrevistas
já citados. Os próprios remeiros sentiam a discriminação,
o estigma, que a sociedade lhes impunham. Daí, o conflito, a resistência.
Chamadas de couros e caboges nas cidades ribeirinhas, as prostitutas eram
discriminadas do ponto de vista social. Mas as que mantinham relações
sexuais com remeiros eram marcadas por uma desqualificação social
adicional. Passavam a ser identificadas pelo epíteto mulher de remeiro
– uma classificação depreciativa que lhes era atribuída
pela sociedade majoritária. Na literatura popular, percebe-se esse
fato. Vejamos, a seguir, a letra ''L'' do ABC do Antônio Moniz, de autor
desconhecido:
Lamentando a minha sorte
passei noite, passei dia
privado da liberdade
no meio daquela orgia
mulher-dama de remeiro
tem muito mais regalia. (s./n./t.)
O poeta lamenta sua sina a bordo do vapor Antônio Moniz comparando-a
com a situação da mulher-dama de remeiro, cuja posição
social era marcada pela discriminação e desqualificação
nas cidades ribeirinhas. O fato de ser mulher de remeiro era um agravante
para a sua condição de couro. Em entrevista, o comandante Francisco
Leobas confirmou essa qualificação depreciativa imposta pela
sociedade envolvente acrescentando que ''mulher de remeiro era a mulher de
segunda, desclassificada''.6 Esta expressão – mulher de remeiro
– é mais uma informação reveladora da posição
social dos remeiros e do estigma que a caracterizava.
De um modo geral, a mudança de profissão implicava ascensão
social dos remeiros; garantia-lhes algum prestígio no meio social.
Alterava o seu status, que se tornava mais alto. O saber-fazer atinente à
navegação, o conhecimento das condições de navegabilidade,
que eles internalizavam arrastando vara na coxia das barcas, tornavam possível
essa mobilidade social, na medida em que podiam ser incorporados às
empresas de navegação como tripulantes dos vapores (gaiolas).
Na profissão de vapozeiros, os ex-remeiros gozavam de maior prestígio
nas cidades ribeirinhas. Mas, sintomaticamente, procuravam esconder sua condição
social anterior, especialmente a medalha (calo formado pelo instrumento de
trabalho) que poderia identificá-los socialmente como ex-remeiros.
O termo ''medalha'' possui uma conotação jocosa. Esse sinal
diacrítico – o calo – denunciava, de fato, a condição
social de remeiro. A sociedade envolvente identificava-os e, até mesmo,
discriminava-os ao constatar a existência do calo em seu peito revelando
sua condição de piau. É importante conhecermos a tradução
desta palavra da língua tupi para o nosso idioma: ''Piau [adj.]: de
pele suja, manchada, falando-se de peixes. O mesmo que ipiacu'' (Bueno, 1984,
p. 250). O piau é um peixe de água doce que tem duas manchas
arredondadas nos flancos. Pertence à fauna do rio São Francisco,
de seus afluentes e de outros rios brasileiros. Assim, comparava-se as manchas
escuras do peixe com os calos negros provocados pelo instrumento de trabalho
das barcas. Se os remeiros ascendiam socialmente, mudando de profissão,
o velho estigma denunciava sua condição social anterior –
a condição de piau. As lembranças permaneciam indeléveis.
Nos tempos duros, podia-se ouvir do barranco quando uma barca ia passando:
''Ô, piau porco d'água!''. Daí, a necessidade de omitirem
suas origens profissionais depois que mudavam de profissão.
No romance regional, é também mencionada esta característica
da vida social dos remeiros: o estigma proveniente de sua vida profissional.
É importante conhecermos, a seguir, um trecho de bilhete da personagem
Lili ao seu namorado Orindo, ex-remeiro e protagonista do romance de Osório
Alves de Castro, citado anteriormente: ''Não acredito no que estão
dizendo; que você tem no peito uma mancha de vara de remeiro do São
Francisco. Tem horas que desejo cortar a língua de muita gente'' (s./d.,
p. 306). Nesse particular, a entrevista do comandante Francisco Leobas, que
– diga-se de passagem – trabalhou em companhia de ex-remeiros
nas empresas de navegação, é esclarecedora: ''O calo?...
Mostravam... Mas pra quem eles tinham confiança. O compadre Leônidas,
mesmo, mostrava. Agora, o desconhecido, se perguntasse: 'O sr. foi remeiro?'
Eles diziam: 'Não interessa!'''.7 O velho estigma que havia submetido
os remeiros à discriminação e desqualificação
social no passado era percebido como uma ameaça em sua vida social
no novo ambiente de trabalho – os vapores.
A discriminação incluía também uma referência
jocosa ao varejão, ao qual a população ribeirinha se
referia como a caneta. Se lembrarmos que os remeiros eram analfabetos, entende-se
o teor da ironia.
Ao perceberem algumas características mais evidentes da posição
social dos remeiros, alguns autores inadvertidamente os classificaram de párias
(Trigueiros, 1977, p. 146), influenciados talvez pelo exemplo clássico
de sociedades de castas: a sociedade indiana. Na verdade, aquela classe de
trabalhadores estava integrada numa sociedade caracterizada por relações
capitalistas; eram vendedores de força de trabalho que potenciavam
a acumulação de capital numa escala bastante ampla, tornando
possível a existência de algumas frações de classe
constituídas por proprietários capitalistas: o barqueiro (comerciante
ambulante), o grossista (atacadista) e, até mesmo, o exportador de
couros, peles, borracha de mangabeira etc. A possibilidade de mobilidade social
(ascensão social) nos termos em que a colocamos anteriormente não
era comum na sociedade de castas indiana, por exemplo – o que se nos
afigura uma diferença crucial entre o sistema de castas e o sistema
social vigente no Médio São Francisco. Ademais, vale lembrar
a religiosidade, diferente nas duas sociedades, e a prática endogâmica
na sociedade indiana.
É evidente que, em sociedades onde o mando se sobrepõe às
liberdades individuais e coletivas, a discriminação e a desqualificação
social, que caracterizam o estigma, encontram campo fértil para proliferar;
mas não são exclusivas deste tipo de sociedade.
Os remeiros não aceitavam passivamente o estigma...
Os conflitos
Uma das características da vida social dos remeiros era o seu comportamento
violento nas localidades ribeirinhas, o que se pode perceber em relatos nas
entrevistas (Neves, 1998, 209-27). O estigma explica, pelo menos em parte,
essa agressividade. Sua presença nas cidades e vilas estava quase sempre
associada a conflitos, seja com a polícia, seja com cidadãos
comuns ou, até mesmo, com prostitutas. Nesse particular, é revelador
um texto do escritor Wilson Lins em seu livro O Médio São Francisco:
uma sociedade de pastores e guerreiros:
Trazendo em si todas as qualidades viris do curiboca nordestino, ele é
excelente matéria-prima para o cangaço. Com todos os traços
característicos do jagunço, o remeiro é um valente, e
não só nas lutas contra o rio e as corredeiras. Sua arma predileta
é a peixeira, faca de ponta fina e lâmina larga. Nas desordens
de casa de raparigas, a peixeira funciona sem piedade, mandando para o outro
mundo quantos invistam contra o cabra-remeiro. (1960, p. 132)
Esses conflitos ocorriam, sobretudo, com os paisanos do comércio, isto
é, com aqueles moradores das localidades ribeirinhas, que freqüentavam
as chamadas zonas (do meretrício) e as chamadas brigas de jegue. Esta
última expressão, eivada de preconceito, era utilizada por integrantes
das elites ou das classes intermediárias para designar os bailes de
pessoas humildes e os arrasta-pés nos prostíbulos.8
A intervenção policial nos conflitos só fazia botar mais
lenha na fogueira, ampliando o furdunço, com as conseqüências
previsíveis: a ocorrência de mortes e ferimentos. Em substituição
à faca peixeira ou à lambedeira, os remeiros portavam também
um cacete, utilizado nessas rixas para a solução das desavenças.9
Uma palavra veiculada no discurso dos nossos entrevistados caracteriza significativamente
as representações da classe acerca dos policiais que os reprimiam,
revelando a tensão entre as duas partes. A palavra é macaco
– sempre utilizada em sentido depreciativo.
No Médio São Francisco, há um ditado popular –
relembrado pelos barranqueiros mais idosos – que pontifica: ''remeiro
na areia / mulher-dama na peia''. Em que pese o duplo sentido que vislumbramos
nesse ditado, o significado literal é bastante evidente e foi amplamente
confirmado pelos nossos informantes: os conflitos entre os remeiros e os couros
(as prostitutas) eram freqüentes e, não raro, provocavam a intervenção
policial. O termo peia é sinônimo de surra, chicote. Mas vale
mencionar o outro significado: peia é um sinônimo popular de
pênis. Nesse particular, o ditado diz respeito ao relacionamento sexual
dos remeiros com as prostitutas.
Referindo-se aos conflitos com os soldados da polícia do estado da
Bahia, um dos nossos entrevistados afirmou que os tripulantes das barcas ''não
respeitavam polícia''. Por outro lado, é importante ressaltar
um trecho de depoimento que contribui para revelar as representações
e práticas sociais acerca dos remeiros: ''Diante de todos os sacrifícios
(o trabalho na coxia das barcas), eram repudiados pelas sociedades da região
e perseguidos pela polícia como desordeiros''.10 Menciona-se a existência
de repúdio que revela a desqualificação social bem como
a ocorrência de perseguição policial nas cidades ribeirinhas.
É importante esclarecer que as sociedades da região eram as
elites daquelas localidades, pertencentes às oligarquias e às
camadas intermediárias que gravitavam em seu redor.
As entrevistas e depoimentos são coerentes com o relato de sir Richard
Burton acerca da vida social dos remeiros: ''O pessoal não gozava,
em absoluto, de bom conceito e contavam-se vários casos de barqueiros
roubando de seus patrões e os deixando limpos. Bebem e são perigosos''
(1977, p. 295). Bom conceito indica a existência de status respeitável,
de integração ao meio social, o que não era o caso dos
moços de barca. É importante esclarecer que, ao mencionar os
barqueiros, Burton se refere aos tripulantes das barcas.
Com referência aos roubos, ouvimos o relato de um caso muito difundido
entre os remeiros e vapozeiros do São Francisco. Alguns portos onde
o comércio era intenso, como Januária, Barra, Santa Maria, Barreiras,
concentravam um grande número de embarcações. Havia um
remeiro que freqüentemente saía de sua embarcação
para furtar em outras barcas. Quando ele voltava com um saco de farinha nos
ombros, seus companheiros lhe perguntavam: ''Onde você conseguiu esta
farinha?''. Ele prontamente respondia, sempre com muita graça: ''Peguei
com a tarrafa!''.
O viajante inglês (Burton) não esclarece, entretanto, por que
os remeiros eram perigosos. Em nossas entrevistas, tivemos a oportunidade
de colher outras informações acerca da vida social dos remeiros.
Ex-proprietário de barca, o senhor Wilson Castelo Branco se referiu
àqueles trabalhadores como a escória da sociedade; e, com indignação,
responsabilizou-os pelo assassinato de um outro dono de barca, natural de
Remanso (BA), cujo nome era Amaro.11 No conto regionalista ''Barca fantasma'',
a fala de um personagem remeiro contribui também para esclarecer-nos
acerca da citação do viajante inglês em consonância
com a entrevista do senhor Castelo Branco:
— Quá! Cum esse home nós não trabaiava nem amarrado,
falou um dos remeiros. Cosia logo a barriga dele c'a língua da faca!
Ora e veja! Patrão é patrão: tem qui andá dereito
c'a gente, pra se podê sê correto cum ele! Quem qui é cachorro
pra aguentá? (Oliveira, 1931, p. 39-40)
A disposição dos moços de barca para a violência
física fica evidenciada nessa citação do conto de D.
Martins de Oliveira, escritor nascido e educado em Barra (BA), cidade ribeirinha
do São Francisco.
Alguns termos e expressões – presentes em entrevistas –
eram utilizados pela sociedade majoritária para discriminá-los:
porco d'água, pé pubo, piau, pé de prancha, burro d'água,
bicho d'água etc. Estes vocativos e epítetos partiam do barranco,
do cais e dos vapores em direção às barcas. Em sentido
contrário, espoucavam os palavrões visando, sobretudo, a mãe
do interlocutor. Se houvesse oportunidade, a violência não ficava
limitada em nível apenas verbal. Era comum também a violência
física.
A disposição psicológica para o revide às ofensas
e à discriminação social está contida nos versos
abaixo, de autoria dos remeiros:
Só quero ter vida e saúde enquanto for respeitado.12
De todos os lados partiam pilhérias, apelidos e troças dos beiradeiros
e dos vapozeiros (tripulantes dos vapores). Assim, os versos acima revelam
de maneira subjacente uma carência na vida dos remeiros: o respeito
da sociedade. Mas há também a disposição para
a resistência.
No conto ''Pedro Barqueiro'', que se tornou um clássico da literatura
brasileira, Afonso Arinos – escritor nascido em Paracatu (MG) –
mostra as origens do protagonista e uma característica de sua personalidade:
Daí, ainda contavam muita valentia do Barqueiro, nome que lhe puseram
por ter vindo dos lados do Rio S. Francisco. (...)
Um dia, como já lhe contei, apareceu lá em casa um moço
pedindo auxílio a meu patrão para agarrar o negro. Era mesmo
escravo, o Barqueiro; mas há muitos anos vivia fugido. (s./d., p. 95-96)
A caracterização do personagem corresponde à realidade,
ao tripulante de barca do rio São Francisco:
Crioulo retinto, alto, troncudo, pouco falante e desempenado. Cada tronco
de braço que nem um pedaço de aroeira.
Estou com ele diante dos olhos, com aquela roupa azuleja, tingida no Barro
Preto; atravessado à cinta um ferro comprido, afiado, alumiando sempre,
maior que um facão e menorzinho do que uma espada.
Este negro metia medo de se ver, mas era bonito. Olhava a gente assim com
ar de soberbo, de cima para baixo. Parecia ter certeza de que, em chegando
a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. (idem, p. 94-95)
O ferro descrito pelo grande contista era possivelmente a temida lambedeira
que os remeiros costumavam usar nas cidades ribeirinhas. Em substituição
a essa faca, era comum utilizarem-se também de um cassetete. Outras
características do personagem merecem nossa atenção tendo
em vista a semelhança com os embarcadiços das velhas emas: negro,
forte, arrogante... Ou melhor: resistente!
Por fim vale conhecer como repercute no referido conto esta característica
marcante da vida social dos remeiros: o conflito, a violência.
Chegara uma precatória da Pedra dos Angicos e o juiz mandou prender
a Pedro. Deram cerco à casa onde ele estava na noite do batuque. (...)
Quando cercaram a casinha e lhe deram voz de prisão, o negro fechou
a cara e ficou feito jacaré de papo amarelo. (...)
Chegaram a entrar na casa três homens da escolta, e todos três
ficaram estendidos. (idem, p. 95)
É importante esclarecer que Pedra dos Angicos é o antigo nome
de São Francisco (MG), cidade ribeirinha. A comparação
do remeiro com animais ferozes aparece também nas entrevistas: ''remeiro
era caça que cachorro acuava'' – dizia-nos o senhor Antônio
Joaquim dos Santos, ex-barqueiro, em Remanso (BA).
No romance regional, estão presentes também o conflito e a violência.
Em O reduto, Wilson Lins contribui para reconstituirmos algumas características
da vida social daqueles trabalhadores. Ex-remeiro, o personagem Pedro Gamela
vive com uma prostituta e comete um assassinato arremessando um chuço
de pesca contra um jovem em Pilão Arcado (BA). Em Remanso da valentia,
outro romance que compõe a trilogia do mesmo autor, o referido personagem
morre em circunstâncias trágicas, vítima de sua personalidade
violenta. Esses fatos são reveladores da tensão entre a classe
dos remeiros e a sociedade envolvente. Nesse mesmo romance, a linguagem de
Pedro Gamela denota sua índole e suas origens:
— Desn’antonte que não tenho sossego, e se já subesse
dessa traiança no dia em que fui à Vila, em vez de voltar pra
cá, eu tinha era ficado lá, mas era na cadeia, pois havera de
comer na faca aquele doutorzinho de merda! – rugia o negro, enraivado,
numa voz abafada. (Lins, 1967, p. 143)
Entre os vapozeiros do rio São Francisco, circulava uma anedota cujo
protagonista era um remeiro; seu apelido, Jacuba. Esta anedota revela a disposição
dos remeiros para a violência física. Vale mencionar que a jacuba
fazia parte da alimentação diária daqueles tripulantes
das barcas. Consiste basicamente na mistura de farinha de mandioca, rapadura
raspada e água. Certa vez, um barranqueiro tomou um prato; dentro dele,
colocou um pouco de farinha, acrescentando uma porção de raspas
da boa rapadura de Januária. Quando ia derramar a água da caneca
no prato, ele ouviu a ameaça: ''Se misturar, morre!''. Era o remeiro
Jacuba que repudiava com veemência seu apelido, ainda que não
pronunciado verbalmente, não permitindo, até mesmo, que o alimento
fosse preparado à sua frente.
O cais dos portos, as zonas (prostíbulos), as vendas, onde se comprava
cachaça, constituíam os locais que os remeiros freqüentavam
nas cidades ribeirinhas. Ali desenvolviam sua sociabilidade; ali firmavam
sua identidade ante os grupos sociais com os quais conviviam. Mas ali também
ocorriam os conflitos.
As barcas
Em 1748, dom Manoel da Cruz partiu do Maranhão com destino a Mariana,
província de Minas Gerais, para tomar posse no novo Bispado marianense.
O relato da viagem encontra-se no documento histórico denominado Áureo
Trono Episcopal (Ávila, 1967). Dom Manoel viajou pelo interior da colônia
chegando à confluência do rio Preto com o rio Grande, que por
sua vez deságua no São Francisco. O senhor Bispo e sua comitiva
ocuparam duas barcas percorrendo aproximadamente 1.800 km até alcançar
Sabará (MG), às margens do rio das Velhas, outro tributário
do São Francisco (idem, p. 373-80). Vejamos, a seguir, um breve trecho
do relato de viagem:
As barcas seguiam um canal pelo meio do rio, e dos lados ficavam dois bancos
de areia que impediam buscar a terra para dar fundo. Com grande susto, venceu
S. Excelência o dito canal e tomou porto duas léguas abaixo da
Carunhanha, mas ficou embarcado na sua barca, e a sua família, em outra.
(idem, p. 375)
É provável que em 1748 já houvesse barcas realizando
o transporte regular de cargas no São Francisco. Os tripulantes das
embarcações que transportavam dom Manoel e sua comitiva deveriam
ser profissionais experientes. É importante esclarecer que Carunhanha
é o nome antigo da atual Carinhanha (BA).
Residente em Barra (BA) no século XIX, Thomaz Garcez Paranhos Montenegro
confirmou a existência de barcas na segunda metade do século
XVIII, mencionando seus nomes sem deixar de citar seus proprietários:
Santa Maria I, de João Maurício da Costa e José de Mattos,
de Sento Sé (BA); Claro Dia, propriedade de Antônio de Souza
e Mendonça da Cunha; e São José, de José Lopes,
da fazenda Jequitaia em Sento Sé (BA) (Montenegro, 1875, p. 134-35).
De um modo geral, as barcas de Sento Sé dedicavam-se ao transporte
do sal da terra produzido em suas imediações.
Na segunda metade do século XIX, os barqueiros adotaram a figura, hoje
conhecida como carranca. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi
Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo
de gigantescas formas, de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores
dos tempos coloniais'' (1979, p. 33). Figura, figura de proa e leão
de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros
ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. Mas vale atentar
para outras informações de Aguiar acerca das barcas:
Vista de perto assemelha-se grosseiramente a uma das lanchas de nossa cabotagem
marítima, porém sem mastros, tendo à ré alto e
comprido camarote, com portas e janelas, e de um tamanho que absorve pelo
menos um terço da barca em cujo camarote fazem armações
internas para os gêneros, se porventura a barca é de negócio;
havendo algumas em que o camarote forma como que uma grande arca quase do
comprimento da barca, a fim de melhor abrigarem as fazendas. (idem, 1979,
p. 32)
A maioria das barcas possuía uma tolda coberta de palha de carnaúba,
a qual o autor chama de camarote. Na proa, havia um compartimento menor a
que os remeiros davam o nome de murundu. O leme ficava na popa, um espaço
descoberto onde o mestre (piloto) trabalhava. Os remeiros mourejavam nas coxias,
ou seja, nos espaços laterais a bombordo e a boreste. Como se pode
perceber no texto acima, algumas embarcações faziam o comércio
de tecidos.
Vejamos agora a presença da barca num romance, Paixões alegres,
recentemente lançado, cujo autor é natural de Januária
(MG):
Em tempos mais afastados ainda, bem anteriores ao meu nascimento, meu avô
paterno transitava pelo São Francisco nas velhas barcas de carrancas
monumentais na proa. Ele era proprietário de uma delas e fazia o comércio
ribeirinho transportando cereais, rapadura, sal, querosene e outras mercadorias
do consumo barranqueiro. Dez, doze remeiros compunham a tripulação
que subia e descia o rio singrando a corrente a muque, tangendo a embarcação
à força do movimento ritmado dos varejões e remos. (Souza,
1996, p. 11-12)
O escritor menciona alguns produtos que de fato as barcas transportavam, mas
não se pode perder de vista a borracha de mangabeira e maniçoba,
os couros e peles, o café, a farinha etc. O referido romance possui
traços autobiográficos.
No romance Maleita, Lúcio Cardoso descreve o povoado de Pirapora (MG)
nos últimos anos do século XIX. Nesse particular, vale conhecer
a referência a seu porto: ''O rio era evidentemente o fator principal
da vida no lugarejo. Trazia de longe os barcos semicarcomidos, navegando lentos
por causa da água que sacolejava no bojo apodrecido, a cabeça
de cachorro na proa, balançando ao vaivém da maré'' (s./d.,
p. 52).
Os barcos a que se refere o autor eram precisamente as embarcações
acima mencionadas, que faziam o transporte a frete e o comércio ambulante
ao longo do rio; a cabeça de cachorro era a figura de proa. Na tipologia
criada para classificar as carrancas, a figura de cachorro, mencionada por
Lúcio Cardoso, seria incluída no tipo zoomorfo. Marcel Gautherot
fotografou uma barca cuja figura foi esculpida em forma de cabeça de
cavalo (Gautherot, 1995, p. 94). Mas havia dois outros tipos de figura: a
antropomorfa (mais rara) e a zooantropomorfa. Este último tipo era
mais comum. As esculturas desse tipo, fotografadas também por Gautherot
(idem, p. 88-90), possuíam características de animais e de seres
humanos (Pardal, 1974). Em entrevista concedia pelo ex-remeiro Emídio
Lopes da Silva, ouvimos referência a uma figura de proa do tipo antropomorfo
– uma cabeça de mulher.13 Mas pelo menos um barqueiro colocou
um chifre de boi na proa de sua embarcação em substituição
à tradicional figura. Os chifres estão também nas cercas
de algumas propriedades rurais do Médio São Francisco –
no sistema de crenças regional, são a garantia de proteção
contra o mau olhado. Acreditava-se que as figuras de proa protegiam as barcas,
inclusive contra os seres míticos do rio.
Em outro trecho do seu livro, Lúcio Cardoso mencionou especificamente
uma barca que partia do povoado de Pirapora: ''A 'Sant'Ana da Lagoa' voa sobre
a corrente'' (s./d., p. 102). Petrônio Braz cita em seu romance uma
barca cujo nome encontrava-se efetivamente registrado nos arquivos da Capitania
dos Portos em Juazeiro (BA): ''Os seus doze metros de comprimento por dois
de largura estavam pintados de vermelho vivo, em toda parte visível
acima da linha d'água. Na proa, atrás da carranca, lia-se um
nome: Gaivota'' (2002, p. 60). No bojo da Gaivota, a barca do romance do senhor
Braz viajava uma carga de rapaduras – alimento básico dos ribeirinhos.
As barcas cumpriam também funções paramilitares nas lutas
entre coronéis do Médio São Francisco. No romance Militão
sem remorso, de Wilson Lins, a fala de um personagem (comendador) em conflito
com outro chefe local é reveladora: ''Cabras não me faltam,
nem munição, e estou com a barca cheia, para atacar o Campo
de Fora, hoje à noite'' (1980, p. 95). Os remeiros podiam alinhar-se
nas hostes de um grupo de parentesco, comandadas por um coronel, ou sob as
ordens do patrão (barqueiro), conforme entrevistas (Neves, 1998, p.
150).
A integração inter-regional
No princípio do século XIX, os cientistas Spix e Martius registraram
em seu livro algumas informações da Alfândega de Malhada
sobre as atividades de importação e exportação
da Província de Minas Gerais por intermédio do rio São
Francisco. É importante esclarecer que essa alfândega localizava-se
às margens do grande rio, nas proximidades da divisa entre as três
províncias: Minas, Bahia e Pernambuco. O sal da terra foi o principal
produto importado nos períodos de abril a setembro de 1816 e de outubro
de 1816 a março de 1817, se considerarmos o volume em arrobas e quantidade
de sacas. Mas o valor dos objetos de fabricação européia,
sobretudo tecidos, superava largamente o montante pago pelo sal nos dois períodos,
em que pese a grande diferença em termos de volume. Portanto, vale
ressaltar que muito remotamente os produtos da Revolução Industrial
expandindo-se pelo mundo já ganhavam o mercado do Médio São
Francisco, utilizando as barcas como meio de transporte. As elites regionais
vinculavam-se como consumidoras ao mercado internacional que então
se desenvolvia. A tabela de exportação da Província de
Minas Gerais no período de abril a setembro de 1816 revela a predominância
de dois produtos: rapadura e farinha de mandioca, alimentos básicos
dos ribeirinhos (1981, p. 41-48).
Monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro Araújo, cuja obra publicada
em 1822 demonstra um significativo conhecimento deste autor sobre a região
do Médio São Francisco, apresenta-nos algumas informações
de natureza econômica, ressaltando as articulações regionais
e inter-regionais que então se operavam na Freguesia da Barra (atual
Barra do Guaicuí-MG):
(...) se conserva nesse lugar mui florente comércio, sendo o maior
dos gêneros o sal transportado do Rio S. Francisco. (...) Foi esta povoação
a primeira do sertão na margem oriental do Rio das Velhas, mui populosa
e comerciante, quando os habitantes das Gerais, e Goiás, faziam por
aí caminho para a Bahia. (1822, p. 175)
Ao mencionar o sal ''transportado do Rio S. Francisco'', implicitamente o
autor se refere aos meios de transporte que então se utilizavam –
as barcas e os ajoujos. Vale esclarecer que o sal mencionado pelo monsenhor
Pizarro é o sal da terra extraído das salinas de Sento Sé,
Pilão Arcado, Campo Largo etc., então pertencentes às
províncias da Bahia e de Pernambuco. É possível que ''os
habitantes das Gerais e Goiás'' utilizassem também as referidas
embarcações para chegar à Bahia.
Sem ter visitado a Freguesia da Barra no princípio do século
XIX, Augustin Saint-Hilaire permite-nos o acesso a conhecimentos acerca da
integração daquele povoado com regiões adjacentes –
estribado possivelmente em informações de ribeirinhos residentes
em Salgado (atual Januária-MG) onde ele esteve:
Devo lamentar, todavia, não ter visto a povoação de Barra,
que está situada na confluência do Rio das Velhas e que, estando
mais perto que Salgado e S. Romão de Tejuco, Vila do Príncipe,
Vila Rica, recebe maior número de tropas de cargueiros e entretém
um comércio importante com a região das salinas. (1975a, p.
354)
É importante esclarecer que Tejuco é o antigo nome de Diamantina
(MG); Vila Rica é o antigo topônimo de Ouro Preto (MG); e a Vila
do Príncipe deve ser Paracatu do Príncipe (MG). Certamente em
grande número, as tropas de mulas visitavam a povoação
de Barra. Portanto, vale ressaltar o papel social dos tropeiros no sistema
econômico regional. Por outro lado, Saint-Hilaire confirma as informações
do monsenhor Pizarro: a Freguesia da Barra recebia o sal da terra mantendo
''um comércio importante'' com os povoados salineiros por intermédio
das barcas. Mais de 1.000 km de trecho navegável – vale esclarecer
– separam Barra do Guaicuí da sub-região das antigas salinas.
Todo esse percurso era beneficiado pelo comércio realizado pelas barcas.
Até mesmo produtos estrangeiros chegavam à Freguesia da Barra
conforme sir Richard Burton que a visitou em 1867: ''Meu companheiro comprou
em sua loja (do delegado) uma peça de algodão, com a marca J.
Branley Moore; estava cheia de goma, leucomaína e dextrina, em triste
contraste com o bom produto caseiro de Minas'' (1977, p. 163). Em que pese
a qualidade superior do tecido artesanal, ressaltada na citação,
o produto industrializado foi responsável por seu desaparecimento.
A descoberta do ouro em Paracatu data da primeira metade do século
XVIII. Em pouco tempo, o povoado alcançaria, na região, status
de importante centro econômico, cujo consumo de bens e serviços
parece refletir a opulência de seus grupos sociais hegemônicos.
Vejamos, nesse sentido, o que afirma Saint-Hilaire:
Pagando altas tarifas, eles importavam vinhos e outras mercadorias da Europa,
que ali chegavam varando os sertões. Grandes somas de dinheiro eram
despendidas com as festas da igreja, contratavam-se músicos, construiu-se
um pequeno teatro, e os próprios escravos, em suas folganças,
espalhavam – segundo se conta – ouro em pó sobre as cabeleiras
de suas melhores dançarinas. (1975b, p. 148)
É provável que, no século XVIII, os ''vinhos e outras
mercadorias da Europa'' chegassem a Paracatu a bordo das barcas, depois de
passar pela Alfândega de Malhada.
Segundo informações legadas por monsenhor Pizarro, a população
de Paracatu em 1766 constava 12 mil habitantes (Araújo, 1822, p. 213)
– um número bastante significativo, se comparado a outros povoados
da colônia, e um mercado consumidor importante.
Além do ouro encontrado em seus córregos e riachos – sobretudo
no córrego Rico –, Paracatu passou a produzir, no século
XVIII, gêneros alimentícios cujo excedente era exportado para
o Médio São Francisco e áreas adjacentes. Vejamos, nesse
particular, o que afirma Saint-Hilaire, que esteve na sub-região de
Paracatu em 1819:
Depois que os habitantes da região de Paracatu passaram a cultivar
regularmente suas terras, os que habitam as margens do S. Francisco vêm
sempre comprar em suas mãos o milho, o feijão, o açúcar
e a aguardente, trazendo em troca o sal de Pilão Arcado. Durante o
tempo que passei em Paracatu encontravam-se ali vários comerciantes
de Caiteté, empenhados em comprar víveres. (1975b, p. 152)
É importante esclarecer que Caiteté (BA) não é
cidade ribeirinha; localizava-se, na verdade, a uma distância de aproximadamente
180 km do porto de Carinhanha (BA). Menor distância a separava de Bom
Jesus da Lapa (BA), outro porto fluvial do Médio São Francisco.
Vale ressaltar o papel social dos barqueiros levando o sal da terra e comprando
outros produtos.
Paracatu não só produzia, mas também recebia mercadorias
de outras povoações não ribeirinhas servindo, inclusive,
de empório intermediário para a exportação de
gêneros de plantação do Julgado de Araxá (Oeste
de Minas) para localidades do Médio São Francisco, conforme
crônica do ouvidor Antônio Paulino Limpo de Abreu na segunda década
do século XIX (apud Gonzaga, s./d., p. 30).
Vale esclarecer que Paracatu não é cidade ribeirinha, mas tinha
seu porto no afluente de mesmo nome. Diversos autores se referiram a Buriti
a 8 léguas da sede do município como o porto de Paracatu. Apenas
monsenhor Pizarro citou o ''Porto de Bezerra onde as barcas do rio São
Francisco, e as canoas, levam o sal, pelo qual permutam o açúcar,
o toucinho, aguardente, café, queijos e vários outros gêneros
de exportação'' (Araújo, 1822, p. 218). Esse porto localizava-se
a 12 léguas da sede da vila, segundo o referido autor, cujos relatos
datam de 1822.
Nos primeiros anos do século XIX, o mesmo cronista mencionou a posição
estratégica de São Romão, pelo prisma econômico,
como importante núcleo de articulações inter-regionais:
''Do produto das salinas cultivadas nas capitanias da Bahia e de Pernambuco,
sobem para aí (São Romão) carregadas muitas barcas e
canoas cujo gênero compram os negociantes tropeiros para levá-lo
às povoações das gerais e às minas de Goiás''
(idem, 1822, p. 220).
Cabe enfatizar que o sal produzido nos povoados ribeirinhos não era
consumido apenas no Médio São Francisco, mas exportado para
outras regiões da colônia (depois Império). Ressalte-se
que o texto se refere implicitamente a alguns grupos sociais envolvidos no
setor de transportes: os barqueiros, ou seja, os comerciantes e proprietários
das barcas; os tropeiros, que viajavam com suas tropas nos caminhos do sertão;
e os remeiros que se alugavam nas barcas. É possível que os
carreiros com seus carros de bois já circulassem também na região.
Os primórdios da história de Salgado (atual Januária-MG)
remontam ao século XVIII. Saint-Hilaire, que visitou o povoado, presta-nos
informações sobre seu passado: ''Antigamente cultivava-se o
algodão nas vizinhanças de Salgado. Os comerciantes vinham buscá-lo
fiado em tecido grosseiramente, e traziam em troca os objetos de que os habitantes
necessitavam'' (1975, p. 346).
É possível que entre os comerciantes citados pelo viajante francês
estivessem os mercadores do sal em suas barcas. Mas o cronista constata a
existência de outros produtos no porto de Salgado em 1819: ''O açúcar
e a aguardente são os principais gêneros que Salgado oferece
em troca aos mercadores de sal, e é fácil compreender que vantagens
deve fruir desse comércio uma localidade que, por sua lavoura, constitui
no deserto uma espécie de oásis'' (1975, p. 347).
Certamente, implementava-se a produção de açúcar
e aguardente em grande escala visando o mercado. Nesse particular, é
importante conhecer as informações legadas pelo monsenhor Pizarro:
havia 38 engenhos em Brejo do Salgado. Situada a uma légua de distância
do rio São Francisco, Salgado mantinha um porto fluvial onde se localizavam
os armazéns de proprietários de engenhos (Araújo, 1822,
p. 224-25). Vale ressaltar a existência de uma infra-estrutura de produção,
armazenagem e transporte em Salgado, favorecendo o desenvolvimento do comércio.
Em 1867, a vila de Januária continuava sendo um importante entreposto
do Médio São Francisco conforme relato do viajante inglês
sir Richard Burton: ''Encontramos no porto um certo número de canoas
e oito barcas movidas com as varas habituais'' (1977, p. 209). Em geral, as
barcas traziam o sal da Bahia e levavam, na volta, a rapadura e a cachaça
produzidas em Januária. Mas – cabe lembrar – outros produtos
regionais também participavam do comércio ambulante sem perder
de vista o transporte a frete: o ''excedente'' das culturas de vazante como
o feijão e o milho; a farinha, alimento básico do barranqueiro,
produzida nas casas de farinha de sítios e fazendas; couros e peles
etc. Na segunda metade do século XIX, outro produto passou a ser explorado
e comercializado: a borracha de maniçoba e mangabeira.
O produto industrial inglês não estava presente apenas em Guaicuí,
onde Burton o encontrou, mas em toda a região do Médio São
Francisco onde as barcas e ajoujos aportavam. Vejamos, a seguir, a descrição
do porto de Januária em 1875, conforme James W. Wells:
No embarcadouro havia numerosas canoas, ajoujos e barcas que subiam ou desciam
o rio trazendo cerâmica, mercadorias de Manchester, louça, sal
e artigos menores de diversas naturezas, trazidos por terra até a parte
baixa ou alta do rio, originárias do Rio de Janeiro ou da Bahia e muitas
das quais seguirão de Januária até Goiás. (1995,
p. 312)
Esta citação é exemplar, dentre outros motivos, por nos
demonstrar claramente a existência de articulações inter-regionais.
Ademais, vale ressaltar que os remeiros contribuíam indiretamente,
com sua força de trabalho, para potenciar a acumulação
de capital na Inglaterra. A louça a que se refere o autor são
possivelmente os potes e quartinhas (moringas) que circulavam nas barcas.
As louceiras da Caatinguinha domiciliadas em Barra (BA) produziam a melhor
louça da região.
Nas primeiras décadas do século XX, Januária continuava
mantendo intercâmbio comercial com o estado de Goiás. Ali chegavam
carreiros e guieiros em busca do seu principal produto de exportação:
a rapadura. Os januarenses sabiam distinguir os carros goianos por serem maiores,
com maior número de juntas de bois.14
Situada às margens do rio Corrente, afluente do São Francisco,
Santa Maria da Vitória (BA) estava integrada à rede de relações
sociais propiciada pelas barcas. Em 1882, Durval Vieira de Aguiar visitou
a vila. Em seu relato, destaca-se a referência ao movimento das barcas
em seu porto:
(Santa Maria da Vitória) possui um animado comércio, um excelente
porto freqüentemente visitado por barcos de todas as procedências,
e que fazem ali grandes negócios de compra, venda e permuta de gêneros;
tem muitas e regulares casas de negócio. (Aguiar, 1979, p. 28)
O comércio de Santa Maria era favorecido pela existência de produção
agrícola local, de significativa importância em termos regionais.
Plantava-se ali a cana-de-açúcar, destinada à fabricação
de rapadura, cachaça e açúcar. Esses produtos competiam
com a produção de Januária. Mas havia também o
cultivo de feijão, mandioca, frutas etc.
Localizada à margem do rio Grande, afluente do Médio São
Francisco, Campo Largo era uma das povoações que forneciam o
sal da terra para localidades ribeirinhas e regiões adjacentes. Nos
anos 1840, Ignácio Accioli Silva mencionou diversos povoados que recebiam
o sal produzido em Campo Largo:
O (sal) das salinas porém de Campo Largo, além de igualmente
seguir para algumas das partes supraditas, e para todas as que ora formam
as comarcas do rio de São Francisco e Urubu, é ali comprado
e conduzido para os antigamente arraiais da Conceição, Cavalcante,
São Félix, Natividade, Chapada, Carmo, Almas, e outros lugares
da província de Goiás, a troco de ouro, café, açúcar,
solas, arroz pilado, tabaco, e mais alguns gêneros dali trazidos pelos
que vêm anualmente comprá-lo. (1860, p. 30)
Certamente, carreiros e tropeiros operavam o transporte do sal para a província
de Goiás trazendo de lá os produtos regionais. Mais uma comprovação
das articulações inter-regionais.
Em 1882, Durval Vieira de Aguiar visitou Barreiras (BA), à margem do
rio Grande, onde também se produzia cachaça, rapadura e açúcar.
Mas em seu porto embarcava-se um outro produto cujo destino era Juazeiro (BA):
(Em Barreiras) (...) já se fazem avultadas transações
de compra e venda de borracha da mangabeira, que é trazida pelos habitantes
dos Gerais de Minas e Goiás, os quais aí suprem-se dos produtos
naturais, especialmente do sal da terra que é artigo de muito negócio
para exportar. Esse negócio da borracha já se vai engrandecendo
de tal forma que já descem barcas com milhares de arrobas. (1979, p.
48)
Esta citação é também exemplar por caracterizar
as ligações inter-regionais: o sal produzido em Campo Largo
seguia de Barreiras para outras regiões enquanto a borracha de mangabeira
vinha dos Gerais para as margens do rio Grande. Seguia nas barcas até
Juazeiro, onde era embarcada com destino a Salvador, o porto de sua exportação.
Este produto é um exemplo da escala de acumulação de
capital. Havia uma atividade extrativa no campo: os barqueiros adquiriam o
produto nas transações com comerciantes ribeirinhos; em Juazeiro,
vendiam aos grossistas (atacadistas) que, por sua vez, o revendiam aos exportadores
de produtos regionais em Salvador. Mas estes – a exemplo do coronel
Octacílio Nunes de Souza nas primeiras décadas do século
XX – podiam contar com representantes em Juazeiro. Além da borracha
de mangabeira, havia também a borracha de maniçoba – objeto
de transações comerciais nas barcas. No século XX, Barreiras
manteve a condição de núcleo de articulações
inter-regionais:
O município tem muitas estradas para todas as direções,
para cargueiros e carros. Por vezes, o coronel Wolney tem trazido seus carros
de bois a esta cidade, carregados de mercadorias e do mesmo modo os tem levado
à Vila de Duro no estado de Goiás.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
(...) A travessia dos gerais seria diminuta e correria em Goiás, numa
zona povoada, de lavoura e criação de muito gado, donde nos
vem muita carne, gado, couros e borracha de mangabeira. (O município
de Barreiras e a Bacia do rio Grande, 1918, p. 480)
Nesse texto, vale ressaltar o papel social de carreiros e tropeiros na inter-relação
do Médio São Francisco com Goiás. Ademais, é importante
destacarmos um produto que foi objeto de intenso comércio nas barcas:
o couro de boi, ou seja, o couro bovino secado ao sol. A carne a que se refere
o autor é a prestigiosa carne seca goiana.
Só aparentemente Santa Rita (BA) estava isolada nos rincões
do rio Preto, afluente do rio Grande. O engenheiro James Wells menciona diversos
produtos da indústria européia nos ''armazéns bem fornidos''
daquela localidade (1995, p. 72). Na verdade, Santa Rita era um núcleo
urbano integrado ao comércio do Médio São Francisco e
de regiões adjacentes desde o século XIX. Vejamos, a seguir,
algumas informações sobre sua economia nas primeiras décadas
do século XX conforme Américo Correia da Silva:
Comércio e indústria – O comércio do município
de Santa Rita é um dos mais prósperos da zona sanfranciscana.
Contando com os abundantes recursos naturais das suas terras fertilíssimas;
freqüentado por grande parte das populações do norte de
Goiás e sul do Piauí, que nele vêm se abastecer dos gêneros
de que têm necessidade, como se desfazer, vendendo, dos produtos das
suas indústrias, esse município sempre possuiu um comércio
ativo e em ótimas condições econômicas.
Exportando para a capital do Estado a borracha de maniçoba e de mangabeira,
o couro de gado bovino, as peles de cabra, ovelha, veado, caetetu etc., a
resina de jatobá e angico, as plumas de garça, a cera de carnaúba,
a carne seca (do sertão); para as localidades do São Francisco
e para todo o norte de Goiás e sul do Piauí as produções
da sua lavoura, os cereais, o açúcar, a rapadura, a aguardente,
a farinha de mandioca e outros mais, o município sempre gozou de grande
prosperidade financeira. (1918, p. 596)
As exportações para a capital do Estado eram implementadas por
via fluvial. As barcas cumpriam uma importante função no transporte
de mercadorias até Juazeiro. A partir daí até Salvador,
o meio de transporte utilizado era o ferroviário. A Santa Rita chegavam
as mercadorias transportadas pelas barcas; por via terrestre, seguiam em parte
para os estados limítrofes com a Bahia.
Nos anos 1840, o cronista Ignácio Accioli Silva mencionou o sal da
terra produzido em Sento Sé, o qual seguia para Juazeiro e localidades
do Baixo São Francisco bem como para a Província do Piauí
e para Jacobina (BA) (1860, p. 26-27).
Em 1879, o engenheiro Teodoro Sampaio resumiu, com acurada percepção,
a importância histórica e estratégica de Juazeiro como
pólo de articulações regionais e inter-regionais:
Situado na encruzilhada de duas grandes artérias de comunicação
interior, isto é, a velha estrada histórica que da Bahia se
encaminha para o Maranhão, através do Piauí, e a amplíssima
estrada fluvial que desce de Minas e vai ao oceano através da Bahia,
Pernambuco, Alagoas e Sergipe, o Juazeiro, fundado pelos fins do século
XVII, se tornou logo um centro preferido das transações comerciais
destas regiões, e cresceu e se constituiu o foco mais poderoso da civilização
e da riqueza desta parte do Brasil, que se pode designar como a região
média dentre os rios São Francisco e Tocantins. Por essa razão
é aqui comumente denominada a praça entre os sertanejos, mantendo
com o porto da Bahia um grosso trato, servido por cerca de 2 mil muares, que
de ordinário fazem a grande travessia para o litoral em quinze dias
de marcha regular. (2002, p. 103-04)
Vale ressaltar que, entre 1727 e 1731, se estabeleceu a primeira barca de
passagem no lugar onde hoje se localizam as cidades gêmeas de Juazeiro
(BA) e Petrolina (PE) (Informação Geral da Capitania de Pernambuco,
s./n./t., p. 297-98). A partir de então, Juazeiro cresceu em importância
como núcleo de articulações inter-regionais. É
importante destacar no texto acima o grande número de tropas de animais
de carga que operavam o transporte de mercadorias entre Salvador e Juazeiro.
Esta última cidade – vale lembrar – é o ponto final
da navegação no Médio São Francisco para embarcações
de grande tonelagem.
Em 1896, inaugurou-se a Estrada de Ferro do São Francisco estabelecendo
a ligação entre as referidas cidades. Vinte anos depois, a importância
da ferrovia ficou evidenciada neste texto de Anísio de Queiroz:
Todo o comércio do São Francisco e afluentes, compreendido nas
zonas norte deste Estado e limítrofes de Minas, Goiás, Piauí
e Pernambuco se abastecem por intermédio desta Estrada, sendo que somente
de sal o consumo anual está calculado em 50.000 sacos de 68 kilos,
que por si só produz uma renda superior a Rs. 100:000$000. (1918, p.
641)
Em 1910 chegaram os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil a Pirapora
(MG) estabelecendo a ligação entre aquela cidade ribeirinha
e Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Pirapora é o porto inicial da navegação
no Médio São Francisco para embarcações de maior
capacidade de transporte.
A velha tecnologia das barcas integrou-se à moderna tecnologia das
locomotivas estreitando os laços de integração da sociedade
brasileira. Aquelas embarcações somente desapareceriam da paisagem
são-franciscana nos anos 50 do século XX, sendo substituídas
por embarcações mais modernas.
Os remeiros assumiram papel social relevante no sistema econômico regional,
mas contribuíram também para a difusão de crenças
e narrativas populares ao longo da ribeira: mitos, contos, lendas e milagres
do Bom Jesus... Assim, foram atores importantes na formação
do sistema mágico-religioso. Mas, nesse particular, ressaltamos o papel
não menos importante das migrações.
Traços do sistema mágico-religioso
As crenças dos remeiros que tivemos a oportunidade de descrever no
capítulo X do nosso livro (Neves, 1998, p. 241-67), com base em entrevistas
e relatos, estão presentes também no conto regionalista. Nesse
particular, vejamos um trecho do conto ''Barca fantasma'' de D. Martins de
Oliveira, escritor nascido em Barra (BA):
No tempo da festa do padroeiro da Lapa, algumas pessoas que moram a montante
da cidade e não podem ir levar ao santo o seu óbulo com as próprias
mãos, confiam às águas mensageiras uma cuia ou cabaça,
com uma vela acesa e contendo no bojo seu presente sagrado; no trajeto, se
algum viajante ou canoeiro encontra aquilo, não lhe toca senão
para desengastar dos garranchos ou galhos; quando chega ao seu destino, os
remeiros, que já sabem do que se trata, apanham o que for e levam à
gruta divina! (1931, p. 40)
Vale esclarecer que em 6 de agosto acontece a festa do Senhor Bom Jesus na
cidade ribeirinha que tem o nome do santo: Bom Jesus da Lapa (BA). Lá
se reúnem milhares de romeiros. É importante perceber no texto
acima como diversas pessoas participavam do sistema mágico-religioso:
o ribeirinho, que podia ser um roceiro, remetendo sua dádiva ao santo
da Lapa; o canoeiro, que talvez fosse um pescador, facilitando a chegada da
cabaça à gruta sagrada; e, por fim, o remeiro, que pessoalmente
levava o óbulo ao Santuário. Esses tripulantes das barcas, assim
como a maioria dos ribeirinhos, eram devotos fervorosos do Senhor Bom Jesus.
Não se pode perder de vista que os contos de Martins de Oliveira são
ao mesmo tempo ficção e descrição de costumes
regionais.
Era muito comum a remessa de dinheiro ao Bom Jesus conforme entrevistas. Segundo
a crença dos ribeirinhos, o Caboclo d'Água – um duende
fluvial – era o guardião das cabaças. Nesse particular,
é importante ressaltar a interseção entre o catolicismo
popular e a crença num dos seres míticos do rio.
Quem ousasse violar a dádiva dos devotos, destinada ao santo, era exemplarmente
punido conforme consta nas narrativas míticas. Vejamos esta crença
nas palavras de Pai Tonho – personagem do conto ''Barca fantasma'' –,
um velho barranqueiro que assim fala aos remeiros:
Ah!... meus amigo! Deus não demora a castigá os pecado dos home!
Eles ia passano por aqui bem no dia do Padroêro, quando caiu um temporá
em riba deles terrive e o machado de um raio decepou a barca em não
sei quantos pedaço, e não ficou um home vivo pra contá
a históra, por causo qui os qui o fogo do céu não queixou,
minhocão comeu! (sic) (idem, p. 41)
Pai Tonho descreve o castigo dos céus que vitimou o barqueiro Severino
e os remeiros de sua barca pelo fato de o referido patrão ter-se apossado
do dinheiro das cabaças com a conivência dos trabalhadores. O
padroeiro referido na citação é o Bom Jesus. No texto
acima, há também uma referência ao Minhocão, outro
ser mítico do rio, que os ribeirinhos descrevem como malfazejo. Responsável
por naufrágios e queda de barreiras, o Minhocão destrói
as casas e roças dos camponeses; e vira as canoas dos pescadores (Neves,
1998, p. 257). Catolicismo popular e crença nos mitos fluviais compõem
um todo. Outras crenças estão presentes na fala do Pai Tonho:
''As barca, quando é benta e afunda assim, dá um gemido de cortá
o coração. A de Severino, nem nada'' (Oliveira, 1931, p. 41).
Alguns barranqueiros acreditavam que eram três os gemidos no momento
do naufrágio, conforme mencionamos em nosso livro acima citado. Mas
a trágica sina do personagem do conto não tem fim: Severino
torna-se alma penada ou livuzia conforme a linguagem regional; ou, em outras
palavras, assombração. Coletados em entrevistas de ribeirinhos,
diversos casos revelam proibições relativamente à violação
de objetos e crenças sagradas. Sua profanação implicava
punições (Neves, 1998, p. 205).
Em seu conto ''A araponga'', Accioly Lopes menciona a crença dos trabalhadores
nos seres míticos do rio: ''Sucedem-se as cheias e vazantes e gerações
de remeiros. De homens que pelo seu praticismo chegam a adivinhar segredos
do rio; até mareta feita por Negro d'Água'' (1978, p. 59). Para
estabelecer uma relação amistosa com esse ser mítico,
os remeiros e canoeiros atiravam ao rio pedaços de fumo de rolo (fumo
em corda), conforme revelam as entrevistas. Essa dádiva era necessária
para aplacar sua ira ou para ser merecedor de sua proteção nas
atividades de pesca. Mas, no romance A dama do Velho Chico, Carlos Barbosa,
autor residente em Ibotirama (BA), acrescenta outras informações
sobre o mito através da fala de um personagem-remeiro:
Não era nego-d'água, a mocinha pudesse ficar sossegada. E se
fosse, na barca tinha cachaça e muito fumo de rolo e o danado logo
iria embora satisfeito, pois seria com prazer que os forneceriam ao moleque
do rio. Talvez nem precisassem disso, pois a barcaça tinha uma figura
de proa magnífica, feita por Francisco Guarany, de Santa Maria da Vitória.
Um leão de barca grandioso o suficiente para assustar qualquer nego-d'água.
(2002, p. 144-45)
No imaginário popular, as figuras de proa eram a garantia das barcas
contra os duendes do rio. Esculpidas com bocarras escancaradas e olhos esbugalhados,
serviam para afugentar o Nego d'Água. O senhor Francisco Biquiba Guarany,
mencionado pelo autor, não é personagem de ficção;
foi o maior carranqueiro do rio São Francisco. Na atualidade, suas
figuras de proa e carrancas são valiosas peças de museu, sendo
consideradas preciosidades da arte popular brasileira.
O Caboclo d'Água e o Nego d'Água são personagens distintos
de variantes de um mesmo mito. Compadre é o outro nome que lhes é
atribuído. Esses seres míticos foram assim descritos em entrevistas:
de cor preta ou melado, baixos, atarracados, de cabeça pelada. Em seu
livro de memórias, Procuro o menino, D. Martins de Oliveira menciona
a crença dos remeiros no Caboclo d'Água:
Na minha primeira noite tivemos de encostar o paquete num barranco para dormir
em pleno deserto. Os dois camaradas (remeiros) não quiseram pernoitar
dentro da embarcação. Temiam que o caboclo d'água, o
deus do rio, viesse realizar alguma de suas tropelias, segurando-lhes as pernas
e os arrastando para o fundo dos peraus. (1976, p. 218)
Este relato de Oliveira encontra eco nas narrativas fantásticas de
velhos remeiros e vapozeiros, nas quais figura o Compadre arrastando pescadores
e roceiros para as profundezas do rio. O referido autor escreveu também
o romance Caboclo d'Água.
Em seu romance Maleita, Lúcio Cardoso menciona também a presença
do Compadre no discurso dos beiradeiros: ''De novo as lendas surgiam, o caboclo-d'água
com as suas tropelias dentro do rio, as canoas viradas, os remeiros afogados
nos redemoinhos imprevistos'' (s./d., p. 116). Em outros relatos, o Caboclo
d'Água aparece como um ser benfazejo que protege a pesca e salva crianças
do afogamento.
Outros seres míticos povoavam o imaginário dos remeiros e dos
ribeirinhos em geral: a Mãe d'Água, o Cavalo d'Água,
o Cachorrinho d'Água... Mas havia também os mitos da zona rural:
o Romãozinho, o Pé-de-Garrafa etc. A lenda da Cobra-de-Asas,
contada e recontada pelos romeiros de Bom Jesus da Lapa (BA), é urbana,
mas amplamente difundida na região. Outros mitos presentes na tradição
oral dos ribeirinhnos não eram específicos do Médio São
Francisco: o Lobisomem, a Mula-Sem-Cabeça...
Conclusão
Sem desejar justificar a violência, podemos afirmar que a agressividade
dos remeiros nas cidades ribeirinhas era proporcional à violência
da discriminação social e do estigma que lhes eram impostos
pela sociedade majoritária. Ainda assim, eles realizaram uma obra titânica
integrando importantes regiões do Brasil do ponto de vista socioeconômico
e cultural: o Sudeste, o Nordeste e o Centro-Oeste. Em dois séculos
de trabalho, eles contribuíram para a formação e o desenvolvimento
do mercado interno brasileiro.
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Notas
1 Entrevista
com o ex-remeiro João Francisco de Souza (João de Félix),
nascido em 1913, em Pirapora (MG).
2 Entrevista com o ex-remeiro Antônio Xavier de Souza (Antônio
Cachoeira), nascido em 1908, em Juazeiro (BA), (1980). Ver também Neves
(1998, p. 165-90).
3 Entrevista com o ex-remeiro Benvindo Francisco de Souza, nascido em 1907,
em Juazeiro (1980).
4 Idem.
5 Entrevista com dona Emília Neves (63 anos, de prendas domésticas),
em Pirapora (1980).
6 Entrevista com o comandante Francisco Leobas, da Cia. de Navegação
do São Francisco (1980).
7 Entrevista com o comandante Francisco Leobas, já qualificado.
8 Depoimento com o sr. Joaquim Borges das Neves, comandante da FRANAVE (Companhia
de Navegação do São Francisco), nascido em 1906, em Pirapora
(MG), (1975).
9 Entrevista com o ex-remeiro Benvindo Francisco de Souza, nascido em 1907,
em Juazeiro (1980).
10 Depoimento do senhor Joaquim Borges das Neves, já qualificado.
11 Entrevista com o senhor Wilson Castelo Branco (68 anos, comerciante), em
Remanso (1980).
12 Entrevista com o sr. Benvindo Francisco de Souza (73 anos, ex-remeiro),
em Juazeiro (BA) (1980).
13 Entrevista com o ex-remeiro Emídio Lopes da Silva, nascido em 1918,
em Santa Maria da Vitória (BA) (1980).
14 Entrevista com dona Octacília Andrade (90 anos), em Januária
(MG) (1980).
