| Copyright
© 2006 wmansur www.velhochiconline.com - Contato (38) 3741-1315 |
| Copyright
© 2006 - 2007 - www.velhochico.net - Contato:
(38) 3741-1315 - 8823-0753 - Todos os direitos reservados. - Melhor
visualizado em 1024 x 768 |


Já não
se encontram mais nas proas das embarcações são - franciscanas
as célebres carrancas - uma das mais genuínas e enigmáticas
manifestações da arte popular brasileira -, cuja forma predominantemente
zooantropomorfa se mostra de uma originalidade sem similar na história
das navegações. Mesclando detalhes humanos com os de animais,
destes, sobretudo a generosa cabeleira à semelhança de uma
juba de leão, elas apresentam em geral uma expressão de ferocidade.
São feitas de um único tronco de madeira e retratam apenas
a cabeça e o pescoço de alguma figura mitológica indeterminada.
Enquanto as carrancas desaparecem das embarcações, paradoxalmente
sua produção apresenta um visível crescimento, algumas
esculpidas ainda por autênticos artistas primitivos, mas também
grande parte delas feitas sob encomenda por imitadores com o objetivo de
comercialização, destinando-se à venda aos turistas
que vêm descobrindo nos passeios pelo rio São Francisco uma
nova e atraente opção de lazer. Nem faltam contra facções
executadas em barro, desvinculadas, portanto, da tradição
das genuínas figuras de proa. As carrancas transformaram-se, assim,
em disputados objetos de decoração, fato que tem, aliás,
o mérito de não deixar morrer a lembrança dessas curiosas
esculturas, cujos exemplares históricos de notável valor encontram-se
hoje bem longe das águas do rio, quase totalmente em mãos
de colecionadores ou fazendo parte do acervo de museus brasileiros e do
exterior. “A presença de carrancas nas embarcações
do São Francisco surgiu aproximadamente há um século,
pois datam de 1888 as primeiras referências a elas, em obras de Antonio
Alves Câmara e de Durval Vieira de Aguiar”, delas não
se encontrando a menor citação no minucioso relatório
de Halfeld em 1860, mesmo quando esse autor se detém a descrever
detalhadamente os diversos tipos de embarcação encontrados
nos três anos em que viajou pelo rio.
A origem das carrancas parece ter por base interesses eminentemente comercial.
Devido à dependência das populações ribeirinhas
em relação aos suprimentos transportados pelo rio, era natural
a disputa de prestígio por parte dos proprietários das embarcações,
do que resultariam sem dúvida uma freguesia maior e maiores lucros.
A originalidade evidente do primeiro enfeite de proa teria, assim, despertado
logo a emulação dos demais proprietários, os quais
viriam a estimular a confecção e o desenvolvimento de carrancas
também para fazer frente à concorrência dos vapores
que começavam a sulcar o grande rio. Paulo Pardal, autor da mais
completa monografia sobre essa arte popular do São Francisco, perfilha
a idéia de que a disputa comercial generalizou o uso das carrancas,
mas não crê ser isso a razão do surgimento da primeira.
No seu entender, os motivos foram apenas "os de prestígio e
indicação de propriedade, por imitação de carrancas
antropomorfas, vistas por algum fazendeiro do São Francisco, em navios
aportados no Rio de janeiro ou em Salvador. Para que, ao longe, os ribeirinhos
identificassem a barca pelo busto de seu poderoso proprietário à
proa". De ornamento das barcas passou-se também a atribuir a
essas curiosas figuras de proa a função mágica de afugentar
maus espíritos - atribuição devida não só
a uma pequena minoria de ribeirinhos, pois a maioria dos barqueiros prefere
desconhecer semelhante opinião, mas também a narradores fantasiosos,
que encontraram na função totêmica uma fácil
explicação para a obscura origem de tal manifestação
espontânea da arte popular.

As carrancas do São Francisco constituem como bem observa Paulo Pardal,
"uma manifestação artística coletiva, com caracteres
comuns respeitados as individualidades de cada artista, como não
se encontra em nenhum outro local ou época. Fruto da criação
de uma cultura e de uma região isoladas do resto do País e
do mundo, cujos artistas populares, a partir da idéia de esculpir
uma figura de proa, criaram soluções plásticas próprias,
de elevado conteúdo artístico e emocional, que provocam um
verdadeiro impacto.” Dos carranqueiros do São Francisco, o
mais notável foi Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, que em
mais de meio século de produção esculpiu uma profusa
quantidade de peças e revelou-se, em cada uma, um artista de refinada
sensibilidade e criador de soluções originais. Nascido em
1884, na cidade de Santa Maria da Vitória, na Bahia, Guarany nunca
deixou por longo tempo a cidade natal, tendo aí esculpido sua primeira
carranca exatamente em 1901. Sua fecunda produção apresenta
a característica, entre outras que não cabe considerar, de
atribuir a cada peça um nome original e próprio, baseado muitas
vezes em animais pré-históricos, na mitologia indígena
ou apenas em sua rica imaginação: Galocéfalo, Chipam,
Medostantheo, Igatoni, Capelobo, Curupema, Aratuy, Salaô, Melozán,
Zezê, Caipora, Pirajá e tantos outros.
Guarany pode-se afirmar, foi o único profissional no gênero,
pois, embora diversos misteres tenham-lhe tomado boa parte do tempo, a produção
de carrancas permaneceu constante ao longo de sua vida. O mesmo já
não acontecia com os demais, que, mesmo tendo criado peças
de inegável valor artístico, nunca mantiveram maior regularidade
de produção nem puderam viver exclusivamente desse trabalho.
Cite-se, por exemplo, Davi Miranda, conhecido escultor de carrancas em Pirapora
e autor de belíssimas, peças; carrancas, só durante
as horas vagas.
Em sua destinação primitiva de figuras de proa, as carrancas
restringem-se a um curtíssimo período histórico - menos
de um século -, constituindo, portanto, também sob esse aspecto,
uma manifestação artística excepcional. 0 que resta
agora são extrapolações ou variações
em torno o mesmo tema - que não lhes diminui necessariamente - o
valor, pois não faltará para essa nova idade das carrancas
em que se tornou dispensável o batismo das águas do rio, soluções
originais que evitem o esvaziamento de seu conteúdo artístico.
(pesquisas na internet....dominio público e vários autores)
