| Copyright
© 2006 wmansur www.velhochiconline.com - Contato (38) 3741-1315 |
Alcoolismo juvenil
Cerca
de 15% da população terá problemas com álcool
e jovens são mais vulneráveis
Psiquiatra formada em 1981 pela UFMG, Karla Miranda é especialista
em saúde mental, criou o Ambulatório de Dependência Química
do Hospital das Clínicas e foi preceptora dos residentes do 3º
ano. Atualmente, preside a Comissão de Controle do Tabagismo, Alcoolismo
e Uso de Outras Drogas da Associação Médica de Minas
Gerais (Contad-MG). No fim de junho, participou de debate público sobre
“O que todos devem saber sobre os riscos do consumo de álcool
por adolescentes”, na Associação Médica de Minas
Gerais (AMMG). Em entrevista ao Bem Viver, ela fala sobre o fascínio
que o álcool exerce sobre os jovens e como os pais devem lidar com
o problema.
A
expectativa é de que, ao longo da vida, cerca de 15% da população
mundial terá problemas com álcool. Como o governo e a sociedade
podem contribuir para que essa previsão não se concretize?
Vamos, então, falar de medidas preventivas em nível comunitário.
Para que esse tipo de prevenção possa ocorrer, é necessário
fazer uma profunda revisão de valores na sociedade. O ser humano precisa
ser visto como ser biológico, psicológico, social e espiritual,
ou seja, portador de múltiplas necessidades e múltiplos potenciais
de desenvolvimento. É importante ressaltar que a demanda de drogas
está essencialmente ligada à realidade contemporânea,
na qual claramente percebe-se uma exacerbação do consumismo/materialismo/
competitividade; perda dos valores universais da tolerância, solidariedade,
paz, democracia, justiça, direitos humanos, ética; desvalorização
da espiritualidade; empobrecimento dos intercâmbios afetivos; perda
de credibilidade de políticos e autoridades; desequilíbrio econômico;
pressão da miséria e do desemprego. O problema das drogas deve
ser compreendido a partir de sua função social, da organização
da sociedade, da justiça e dos direitos humanos, da preservação
ambiental e da qualidade de vida. Essas questões merecem um enfrentamento
lúcido, corajoso e sereno, pois estão na essência da inserção
do homem entre seus pares e de suas interações, aspirações
e significações.
Qual
é a função da Comissão de Controle do Tabagismo,
Alcoolismo e Uso de Outras Drogas da Associação Médica
de Minas Gerais (Contad-AMMG) e quais são as últimas pesquisas
envolvendo álcool e jovens?
A comissão tem o objetivo de assessorar a diretoria da associação
em assuntos ligados ao tabaco, álcool e outras drogas, e levar esses
conteúdos a médicos de todas as especialidades, uma vez que
a questão das drogas, lícitas ou ilícitas, permeia direta
ou indiretamente toda a prática médica. Além disso, temos
o objetivo de promover debates, levar conhecimentos à comunidade e
contribuir com legisladores, assessorando-os em questões técnicas.
Qual
é a bebida alcoólica preferida da juventude e por que o álcool
produz um fascínio tão grande entre os jovens?
Indubitavelmente, a cerveja é a bebida mais popular. O uso do álcool
em nossa sociedade ainda é considerado um rito de passagem, um sinal
de que a criança está virando adulto. Fascina porque esse é
o modelo de adulto que oferecemos ao jovem. Além disso, o álcool
está presente em quase 90% das opções de lazer a que
os adultos expõem crianças e adolescentes. E mais: a mídia
capta as fantasias adolescentes de realização e prazer e as
devolve associadas a imagens sedutoras das bebidas alcoólicas que quer
vender. Não está aí a Copa do Mundo toda regada a cerveja,
com cenas de adolescentes, mulheres lindas, sucesso, sensualidade e força?
Como
diferenciar um jovem viciado em álcool de um que apenas bebe socialmente?
Um jovem dependente é aquele que, progressivamente, perde o interesse
por atividades próprias da sua idade e que, até então,
eram valorizadas por ele. Essas atividades incluem a escola, namoro, esportes,
família e passa a ocupar a maior parte do seu tempo em atividades nas
quais as bebidas alcoólicas são parte importante. Um jovem dependente
fica depressivo depois do porre, arrependido das “aprontações”,
mas acaba fazendo tudo outra vez e vai entrando num círculo vicioso
sem encontrar solução.
Quais
são as conseqüências do consumo excessivo de álcool
para o organismo e para a sociedade?
Para o organismo do jovem, as principais conseqüências são
dificuldade de raciocínio e memória, com baixo rendimento escolar;
sexo precoce e inseguro com risco de doenças sexualmente transmissíveis
(DSTs) e gravidez precoce; experimentação e dependência
de tabaco e drogas ilegais; dependência precoce de álcool. Para
a sociedade, aumenta a violência e o número de acidentes de trânsito
com vítimas.
De
acordo com o Centro Brasileiro de Pesquisa sobre Drogas Psicotrópicas
(Cebrid-Unifesp), em 10 capitais brasileiras, incluindo Belo Horizonte, 75%
dos estudantes entre 11 e 18 anos já experimentaram bebidas alcoólicas.
Destes, 25% fazem uso freqüente de álcool. Como os pais devem
proceder ao descobrir que o filho menor de idade consome bebidas?
Os pais devem tentar evitar que isso ocorra. Em primeiro lugar, devem refletir
sobre seu estilo de vida e o próprio uso de substâncias psicoativas.
Se houver casos de alcoolismo e/ou dependência de outras drogas na família,
devem estar duplamente atentos e conversar franca e carinhosamente com seus
filhos sobre isso, pois já é sabido que existem gens que predispõem
ao alcoolismo e à dependência de outras drogas. É bom
lembrar que crianças e adolescentes que têm bons laços
afetivos com os pais têm pequenas chances de abuso de substâncias
psicoativas como o álcool. Os pais devem aconselhar os filhos a adiarem
a experimentação de bebidas alcoólicas pelo menos até
alcançarem 18 anos e averiguar se estão seguindo a recomendação.
Se mesmo assim eles chegam a abusar, os pais devem procurar a ajuda de profissionais
especializados em problemas relativos a tabaco, álcool e drogas. É
sempre bom lembrar que nem todos os profissionais de saúde são
especialmente treinados para lidar com o problema.
Alguns
estados brasileiros estão implantando a lei seca, ou seja, proibindo
o funcionamento de bares depois da meia-noite. Em alguns casos, a medida tem
reduzido drasticamente o número de crimes contra a vida. No entanto,
uma corrente considera a proibição um ato conservador e ditatorial.
O que você acha disso?
Isso não é lei seca, é uma política pública.
É igual vacinação. É a única forma de deter
uma epidemia que está trazendo grandes estragos à sociedade.
Foi com a vacinação que a paralisia infantil foi praticamente
extinta no Brasil. É para isso que existem autoridades sanitárias,
que fazem leis fundamentadas em pesquisas científicas. Em Diadema (SP),
essa medida foi implantada com sucesso, com a assessoria do professor Ronaldo
Laranjeira, da Unifesp. Foi uma medida que diminuiu em 50% a violência
nas ruas e em 25% a violência doméstica na cidade, considerada
a mais violenta do país. Quem deixou de ser esfaqueado, de ser atingido
por balas perdidas, de perder filho, filha, irmão, marido, mulher ou
amigo é que vai dizer se valeu a pena. E quem quiser pode continuar
bebendo em casa.
Que
fatores podem influenciar o jovem na hora de decidir se vai ou não
beber pela primeira vez?
O clima social, modelos, vínculos afetivos, entre outros.
Por
que os profissionais de saúde costumam dizer que o álcool é
a porta de entrada para outras drogas?
Porque é sempre a primeira droga. As pesquisas mostram isso. Em seguida
vêm os inalantes para os meninos e os tranqüilizantes, para as
meninas. O álcool desinibe, provoca sensação de facilidade,
encorajamento e euforia, o que predispõe a uma série de condutas
de risco.
Quais
são as opções de tratamento para viciados em álcool?
Os dependentes de álcool em nosso meio ainda não têm recursos
adequados para tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). Os
planos de saúde também não se interessaram pelo assunto
e a maioria absoluta não cobre esse tipo de transtorno. Mesmo em nível
privado, ainda é pequeno o número de profissionais realmente
preparados para lidar com pessoas com problemas de dependência a substâncias
psicoativas. Os grupos de auto-ajuda podem ser úteis em alguns casos,
assim como as comunidades terapêuticas, mas ainda há muito a
ser feito até que a sociedade conquiste o direito de ter melhor assistência
para seus dependentes de álcool e de drogas.
Créditos:
(Ellen Cristie/Estado de Minas)
(Cortesia
do amigo Wellington dos Correios)
